Entre 1.283 professores que atuam na rede municipal de ensino infantil de Bauru, apenas 11 são do sexo masculino. Apesar de ser bastante comum homens darem aulas para as crianças mais crescidas e adolescentes, entre os pequenos, até 6 anos, quem domina são as mulheres. No encontro organizado pela Secretaria Municipal da Educação para dar as boas-vindas a todos os professores da rede, no Sesc, no mês passado, esta desigualdade de sexos na carreira do magistério era nítida.
Toda a quadra coberta estava ocupada por professoras, deixando os poucos homens presentes quase imperceptíveis. Quando a reportagem questionou umas das professoras da educação infantil sobre o assunto, a reação dela deixou ainda mais evidente que o homem é raro naquele ambiente. “Professor na educação infantil? Não tem nenhum. Pelo menos eu nunca vi um homem nas escolas pelas quais passei”, garantiu, surpreendida pela pergunta.
Em meio àquele ambiente dominado pelo público feminino estava Adrianes Júnior, professor e coordenador da Creche Nossa Senhora do Desterro, localizada na Vila São Paulo. Adrianes acha interessante o fato de o ensino infantil contar com menos de 1% de presença masculina. “É uma inversão daquilo que a gente vê na maioria das profissões”, declara ao afirmar que os homens têm se mostrado cada vez mais capacitados a atuar e imprimir valores com sua presença no ambiente educacional.
Sobre possíveis regalias que os homens possam receber por serem minoria, o professor conta que alguns trabalhos que exigem mais força acabam designados ao público masculino, mas que não existe o favorecimento de nenhuma das partes. “Há uma relação de igualdade entre todos dentro da escola”, garante Adrianes.
Professora da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Maria Alice, Vanessa Pereira dos Santos concorda que não existem privilégios nas instituições de ensino e relata que todas as mulheres de sua escola se dão muito bem com o único professor do homem, da disciplina de educação física. “Na escola temos apenas um professor e o tratamento dado a ele é igual. Às vezes, os papos fluem tão normalmente que ele fica encabulado com a conversa porque a gente acaba esquecendo que é diferente”, brinca a professora que assume fazer “corpo mole” em algumas situações para o professor realizar as tarefas mais pesadas.
Mas a presença do público masculino em instituições de ensino infantil tem aumentado, de acordo com o observado por Adrianes. “Não é um trabalho fácil mas os homens têm se interessado”, constata o professor ao avaliar que as crianças precisam de um tratamento equilibrado com a ternura das mulheres e a firmeza dos homens, justificando a afirmação com famosa frase de Ernesto Che Guevara: “é preciso ser duro sem perder a ternura”.
Em sua análise sobre a presença do público masculino na educação infantil, Vanessa garante que um professor é sempre bem-vindo para somar. “Eu acho que, se o professor estudou para isso e está qualificado, ele tem que estar dentro da educação infantil”, afirma a professora.
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Cultura de pai participativo abre espaço para professor de crianças
Ampliando a discussão para uma área mais comportamental, a secretária de Educação de Bauru, Vera Caserio, acredita que o aumento do interesse dos homens em atuar na educação infantil deve-se à mudança ocorrida na estrutura familiar nos últimos anos. Segundo Vera, os homens de têm sido mais presentes na criação dos filhos, o que abre a possibilidade de se especializar nessa área. “Os homens passaram a ter um papel diferente na família, passando a cuidar mais ativamente dos filhos, trocar fraldas, dar banho. Com isso, eles perceberam a possibilidade de se tornarem professores”, avalia a secretária.
Apesar de observar a manutenção das mulheres como maioria na rede municipal de educação infantil, Vera aprova a iniciativa dos homens que entram para esse meio. “Eu acho que eles são excelentes professores”, avalia ao identificar a “troca de papéis” como importante. “Assim como mulheres têm desenvolvido papéis que eram predominantemente masculinos, como a atuação na área de engenharia”, opina a secretária de Educação.
Vera destaca ainda o aumento do número de homens estudando pedagogia, curso de formação de professores que a secretária de Educação conhece bem por ter passado por diversas universidades como professora. “No começo, no curso de pedagogia, a gente não tinha homens alunos, era muito raro. Agora, contamos com uma boa quantidade de homens nas salas de aula”, garante.
Por outro lado, um problema apontado pela professora Vanessa Pereira dos Santos é o receio que alguns pais têm em deixar seus filhos em uma escola com a presença de um professor. “Uma dificuldade é que alguns pais ainda não aceitam. Primeiramente, eles tendem a ficar um pouco inseguros (com professor em sala de aula), mas depois de conhecer a metodologia da escola eles compreendem e aprovam”, garante ao destacar que as escolas apresentam relações bem transparentes entre pais, alunos e professores.