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‘Genialf’ e o Brasil dos esquecidos

Wellington Leite
| Tempo de leitura: 2 min

Morreu na tarde desta quinta-feira, dia 4 de abril, o músico Alfredo José da Silva, o Johnny Alf. Ele lutava há 10 anos contra um câncer. Carioca, sem herdeiros, há anos residia em um asilo na grande São Paulo, saindo eventualmente para um show ou outro. A notícia triste não é tão desesperadora como esse outro fato: o Brasil não reconhece seus grandes homens e mulheres.

Tanto na música quanto no esporte. Seja nas ciências ou nas artes plásticas, a verdade é uma só: dedicar-se e destacar-se em algo que orgulha o Brasil não é nem melhor do que participar de algum programa televisivo (estando nu ou vestido). Johnny Alf, compositor de “Rapaz de Bem”, “Disa”, “Eu e a Brisa”, “Céu e Mar”, “O que é amar?” e muitas outras músicas, gravado por Simone, Leny Andrade, Elizeth Cardoso, Alcione, Emílio Santiago, Caetano Veloso e muitos mais, foi o que chamamos de “precursor da Bossa Nova”. Explico: ele, Dolores Duran, Dick Farney e Tito Madi começaram a deixar mais sofisticado o samba-canção feito na década de 1950. Misturaram com jazz. “Entortaram” o velho samba-canção - que começou a ser feito no Brasil em 1928. Assim Johnny, Dick, Dolores e Tito criaram o caminho para que Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes assumissem a paternidade do nosso estilo musical mais famoso e influente: a bossa nova.

Desses precursores, apenas nosso Tito Madi, nascido em Pirajuí, mas ligado umbilicalmente a Bauru, ainda vive. Recupera-se de um AVC em Copacabana. Não pensemos apenas em bossa nova. Tente saber o que aconteceu com nomes da música caipiria de raiz. Cascatinha e Inhana. Pena Branca, morto este ano também, parceiro de Xavantinho, são nomes importantes para nossa cultura. Porém, às vezes, parecem não ter existido. Meses atrás morria em um casebre na Bahia o último herói-testemunha da Copa de 50.

O mesmo acontece com nomes históricos de grande vulto. O ex-presidente Jânio Quadros, por exemplo, teve o nome substituído em uma avenida aqui em Bauru por conveniências políticas, isso sem desmerecer o novo homenageado, que até já é nome de aeroporto. Outras: as obras de Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Santos Dumont... Você conhece alguém que, ao passar pela rua Rio Branco, aqui em Bauru, pense: - Ah, esse Juca Paranhos foi fantástico!

Exemplos não faltam. Não falo de homenagens póstumas. Estou falando de valorização em vida. Cuidados com a obra e seu autor e dividir isso com a juventude. Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito já cantavam “me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga... depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais”. Na prática brasileira, deveríamos retirar dessa frase o “nada mais” e substituí-lo por “muito mais”.

O autor, Wellington Leite, é produtor, programador e locutor da Veritas FM e locutor da Unesp FM

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