Imagine que você mora em um bairro mal iluminado, sem asfalto ou com infra-estrutura precária ou, ainda, em um bairro que tenha todas estas coisas juntas. O que você faria?
A) Nada, afinal isto é competência dos poderes públicos.
B) Batalharia por mudanças, nem que isso lhe custasse muitas horas dos seus dias.
C) Reclamaria bastante, mas não se envolveria efetivamente em nenhuma frente comunitária.
No geral, frente a problemas iguais ou similares aos descritos no parágrafo acima, as líderes comunitárias que ocupam postos de destaque frente às associações de moradores dos bairros de Bauru optaram pela alternativa B. As justificativas para as escolhas são muitas, embora todas sejam parecidas.
“Eu sentia vontade de mudar meu bairro”, afirma Lourdes de Jesus Martinele, 60 anos, há seis anos presidente da Associação de Moradores do Jardim Godoy, Parque São Geraldo e adjacências.
E ainda: “Não sou mulher de ficar parada, se algo me incomoda, vou à luta”, completa Sidinea da Silva, 47 anos, presidente da Associação de Moradores da Vila Industrial, Pacífico, Paraíso, Alto Paraíso e Rocha, há um ano.
Lourdes e Sidinea resumem o sentimento de cerca de 30 mulheres que atualmente presidem as associações de moradores de bairros de Bauru. Indignadas com as condições dos locais onde vivem e com sede de mudança, elas aceitam acumular jornadas de trabalho e atualmente representam um terço do total de líderes comunitários existentes na cidade.
Para Gisele Moretti, diretora do departamento social da Secretaria das Administrações Regionais (Sear), embora ainda sejam minoria dentre os líderes de bairros, as mulheres caminham para uma igualdade e, enquanto isto não acontece, lançam mão do ‘feeling’ feminino para ganhar destaque e conquistar seus objetivos.
“Não desmerecendo os homens, mas percebo que as mulheres são mais atuantes. Elas se entregam de corpo e alma quando querem conquistar um objetivo. Talvez isso aconteça porque boa parte delas ainda não trabalha fora de casa, mas não é justificativa generalizada, pois existem as que acumulam jornadas e também têm um bom desempenho”, analisa.
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Sentir na pele
Para Acyr Santinho Motta, vice-presidente do Conselho da Condição Feminina de Bauru, a atuação de mulheres como lideranças comunitárias é algo natural, uma vez que culturalmente são elas que vivenciam e sentem na pele a realidade local.
“Se a rua é de terra e a casa não para limpa por conta disso, são as mulheres as maiores prejudicadas. Se o bairro não tem uma creche, as mães não deixam os filhos sozinhos para ir trabalhar. Se as ruas são precárias, é a mulher que enfrenta dificuldades para chegar até o supermercado. Se as mulheres são as maiores afetadas, nada mais natural do que elas se organizarem para lutar por melhorias no bairro onde vivem”, exemplifica Acyr.
Ainda de acordo com ela, a liderança feminina não é algo nato, e sim instintivo, que vem ao encontro de suas necessidades. Outro fator apontado por Acyr é que o número de mulheres engajadas no trabalho voluntário só não é maior porque elas ainda dependem da aprovação e da colaboração da família para se tornarem cidadãs atuantes.
“Por uma questão cultural, os homens sempre foram mais atuantes em tudo o que diz respeito à comunidade. Atualmente a liderança de bairro vêm sendo ocupada por mulheres porque os homens estão mais voltados para cargos políticos, que envolvem poder e dinheiro, onde a atuação feminina ainda é bastante tímida. Ainda assim, elas não abandonaram as outras jornadas que tinham de fazer. Para atuar em um bairro, elas acumulam funções”, justifica Acyr.
O resultado de tal engajamento é facilmente percebido quando se conversa com uma líder comunitária. Elas se sentem realizadas com o aprendizado diário, mostram que têm muita garra e vontade de fazer cada vez mais pelo seu bairro, e garantem que todo esforço é recompensado.
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Um bairro para chamar de seu
Nome: Lourdes de Jesus Martinele
Idade: 60 anos
Profissão: Professora de educação física aposentada
Filhos: 3
Função: Presidente da Associação de Moradores do Jardim Godoy, Parque São Geraldo e Adjacências
Tempo de liderança: 6 anos
Principal desafio: Concluir o Centro Comunitário
Ser líder de bairro é: “Uma satisfação muito grande”.
Entre lutar por melhorias no bairro onde mora e cuidar dos afazeres domésticos e do filho de 21 anos, portador de necessidades especiais, Lourdes de Jesus Martinele, 60 anos, fica com os dois. Corajosa? Nem tanto. Para a professora de educação física aposentada, dar conta dos dois compromissos é algo que completa o sentido de sua vida, embora lhe consuma muitas energias.
Lourdes concilia as tarefas há seis anos, quando foi convidada pela primeira vez pelos pais de alunos da escola onde trabalhava para reativar a Associação de Moradores do Jardim Godoy, Parque São Geraldo e adjacências. O motivo apresentado por eles para retomar os trabalhos da organização era teoricamente simples: fazer do bairro um local melhor para se viver. Mas, na prática, o trabalho exigiria tempo, paciência e dedicação.
Na época, Lourdes estava encerrando suas atividades como docente, e decidiu encarar a proposta como um desafio. De lá para cá, ela não imagina sua rotina de outra forma.
A fase mais difícil se revelou logo nos primeiros dias de sua gestão como presidente, quando teve de dar início à obra fundamental para a aplicação de grande parte de seus projetos: a conclusão do centro comunitário. Atualmente a construção é motivo de orgulho para ela.
“Foi a fase mais complicada do meu trabalho e sei que a comunidade reconheceu os esforços de todos os integrantes da associação, pois todos valorizam muito o local”, afirma Lourdes, que, após o término da obra, trouxe para o prédio diversos projetos culturais e estabeleceu parcerias com profissionais da saúde que atendem e orientam a comunidade.
Mas nem só de estímulos positivos foi marcada a trajetória de Lourdes à frente da presidência da associação. Muita gente chegou a desacreditar que ela daria conta do recado, pelo fato de ter um filho de 21 anos que requer atenção e cuidados especiais.
“De forma alguma”, retruca ela. “Ele é o meu estímulo e meu braço direito. Faz tudo comigo. Muita coisa do que conseguimos em prol do bairro é mérito dele também”, orgulha-se.