Para entender os motivos que levaram as mulheres a assumir a responsabilidade de lutar por melhorias em seus bairros, a reportagem do Jornal da Cidade entrevistou nove das 30 líderes comunitárias de diferentes bairros de Bauru. As entrevistas ajudam a descobrir se já colheram frutos e se a batalha vale a pena.
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Remédio para depressão
Nome: Angela Maria Brito Silveira
Idade: 40 anos
Profissão: Dona de casa
Filhos: 2
Função: Presidente da Associação de Moradoresda Vila São Francisco
Tempo de liderança: 4 anos
Principal desafio: Conquistar respeito e valorização das autoridades públicas
Ser líder de bairro é: “Gratificante”.
“Eu posso fazer a diferença”, “eu nunca desisto” e “sei que vou conquistar meus
objetivos” são frases pronunciadas com frequência pela dona de casa Angela Maria de Brito Silveira, que também exerce a função de presidente da Associação de Moradores da Vila São Francisco.
Quem conversa com Angela crê, por alguns momentos, estar falando com a personificação das palavras garra e determinação, e nem imagina que ela sofreu de depressão até alguns anos atrás.
Angela veio de uma cidade do Paraná para morar em Bauru com seu esposo,logo após o falecimento de seus pais. Chegando aqui, se deparou com um bairro abandonado e precariamente estruturado. E, o que para muita gente poderia ser um agravante para o estado mental, para Angela se tornou um remédio.
“Na hora eu pensei em criar uma associação de moradores. Além de conseguir melhorias para o meu bairro, eu ocuparia o meu tempo e isso amenizaria minha depressão”, conta.
Conquistar a confiança das pessoas foi um de seus principais desafios. Logo no início surgiu um homem interessado em participar da chapa como presidente, com o tempo suas reais intenções foram reveladas: ele pretendia usar a função como escada para conseguir cargos políticos.
A cada adversidade, Angela se sentia cada vez mais forte para batalhar por seus ideais. Problemas como a falta de apoio e valorização por parte da comunidade, aos poucos, foram driblados com o apoio da família, que é composta pelo marido e dois filhos, um de 11 anos e outro de 16 anos.
Sua principal briga no momento é com a burocracia, ela quer valorização. “Para se ter uma ideia, no ano passado, das 180 solicitações que protocolei, fui atendida em apenas meia dúzia. Não vou me dar por satisfeita até conseguir a construção de um centro comunitário aqui no bairro”, reclama ela, que afirma que se sentirá frustrada se até o final de sua gestão não tiver atingido o seu objetivo.
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Oportunidade de aprender
Nome: Marilene Rodrigues Moço
Idade: 54 anos
Profissão: Comerciante
Filhos: 2
Função: Presidente da Associação de Moradores do Núcleo Octávio Rasi
Tempo de liderança: 6 anos
Principal desafio: Dar início aos trabalhos.
Ser líder de bairro é: “Ser guerreira”.
Olhar para o bairro onde mora e traçar uma comparação com o jeito que o mesmo local era há seis anos é o combustível que move Marilene Rodrigues Moço, 54 anos, a continuar com o trabalho que desenvolve à frente da Associação de Moradores do Núcleo Octávio Rasi.
Responsável pela reforma de 80% do Centro Comunitário, que hoje é recheado de atividades culturais, e por manter uma associação de moradores regularizada, Marilene considera-se uma guerreira, mas só descobriu este potencial de liderança com a ajuda dos moradores locais.
Marilene sempre foi bastante conhecida no bairro por ser proprietária de um bar, mas nunca tinha cogitado a possibilidade de utilizar sua popularidade para se candidatar ao cargo de presidente da associação de moradores, até o convite surgir por parte de amigos e conhecidos.
Com a coragem e a determinação, Marilene decidiu aceitar o cargo. “Fiquei com um pouco de receio de não atender às expectativas, já que as pessoas estavam depositando seus sonhos em minhas mãos. Mas aceitei porque sei que, quando a pessoa se entrega de corpo e alma, não tem porque dar errado”, analisa.
Logo na primeira semana de liderança, ela percebeu que tinha razão. Ao procurar ajuda das empresas instaladas no bairro para concluir o centro comunitário, Marilene foi bem recepcionada e voltou para casa com muitas afirmativas. “Foi quando eu percebi que tinha forças, que eu era capaz e que podia fazer muito mais pelo meu bairro”, resume.
Já o marido de Marilene, que a princípio contava os dias para o término dos dois primeiros anos de sua presidência na associação, hoje entende a importância do trabalho desenvolvido por ela e colabora com o que for preciso.
Atualmente, após concluir a terceira gestão, Marilene pretendia finalmente passar o cargo a outro candidato. A justificativa, segundo ela, é a vontade de conceder às outras pessoas a oportunidade de aprender da mesma forma que ela aprendeu. Mas, até o momento, ainda não apareceram interessados.
“É algo apaixonante. No começo as pessoas se esquivam um pouco, acham que é arrumar problema. Mas não é, não. É um aprendizado enorme, que exige tempo e amor, mas compensa”,conclui.
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Liderança adormecida
Nome: Sônia Maria GrossiCapel
Idade: 62 anos
Profissão: Dona de casa
Filhos: 2
Função: Vice-Presidente da Associaçãode Moradores do Jardim Araruna
Tempo de liderança: 2 meses
Principal desafio: Trazer lazer e cultura para o bairro
Ser líder de bairro é: “Transformar sonhos em realidade”.
Nome: Mormozila Schucheman
Idade: 62 anos
Profissão: Bacharel emquímica
Filhos: 2
Função: Presidente da Associação de Moradores do Jardim Araruna
Tempo de liderança: 2 meses
Principal desafio: Trazer lazer e cultura para o bairro
Ser líder de bairro é: “Algo que me dá muito prazer”.
Somente aos 62 anos de idade as amigas Mormozila Schucheman e Sônia Maria Grossi Capel conseguiram despertar o espírito de liderança comunitária que há muito tempo estava adormecido dentro delas.
Para Mormozila, candidatar-se à presidência da Associação de Moradores do Jardim Araruna foi fruto de um incômodo que sentia cada vez que pisava fora de casa e se deparava com um bairro abandonado. Já para Sônia, desenvolver o trabalho só foi possível porque ela já não tem uma agenda tão apertada quanto tinha antes, quando cuidava dos filhos, do trabalho e dos afazeres
domésticos.
A ideia de retomar a associação de moradores do bairro surgiu quando as amigas se deram conta de que o bairro já não era o mesmo de alguns anos atrás. “Antes tínhamos um bom centro comunitário, com médicos, dentistas e projetos assistenciais. Nossas crianças tinham onde brincar com segurança. Hoje isso não existe mais”, compara Mormozila.
Quando decidiram divulgar a ideia para a comunidade, perceberam que o sentimento de indignação era comum a muitos moradores, especialmente as mulheres, que somaram forças e hoje compõem a maior parte da diretoria da organização.
“Estamos apenas começando os trabalhos, mas vamos dar o nosso melhor para que os moradores confiem em nosso trabalho. É nosso papel transformar sonhos em realidade”, analisa Sônia.
Para as amigas, a experiência tem um gosto misto de desafio e de realização. “Percebemos que temos muita garra, força e determinação, e, portanto, somos muito capazes”, resume Mormozila.
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Conciliar tarefas é possível
Nome: Lúcia Helena Zuccari Nava
Idade: 40 anos
Profissão: Auxiliar administrativa
Filhos: 2
Função: Presidente da Associação de Moradores do Núcleo Bauru 22
Tempo de liderança: 4 anos
Principal desafio: Lidar com a diversidade de opiniões
Ser líder de bairro é: “Algo que nasce com você”.
A auxiliar administrativa Lúcia Helena Zuccari Nava, 40 anos é aquilo que se pode chamar de supermulher. Diariamente ela tem de dar conta de uma agenda que contempla quatro jornadas: o trabalho, as filhas, os afazeres diários e as atividades que desempenha como presidente da Associação de Moradores do Núcleo Bauru 22.
A rotina, que é considerada por muitos de seus conhecidos como surreal, faz parte da agenda de Lúcia há quatro anos, quando ela assumiu a presidência da organização.
O catalisador para que ela desempenhasse o papel de líder comunitária ocorreu naturalmente. “No Bauru 22 somos todos mutuários da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab). Percebi que precisávamos de um representante para esclarecer dúvidas, reivindicar descontos e melhores condições, foi quando decidi me candidatar à presidência da associação”, lembra.
Mas para se manter atuante e ganhar representatividade perante a comunidade, Lúcia precisou enfrentar muitos desafios. O primeiro deles começou em casa. Suas duas filhas, uma de 21 anos e outra de 19 anos, mesmo com a mãe quatro anos à frente da associação ainda reclamam da ausência da matriarca.
Já nas ruas, o desafio é driblar as críticas e lidar com uma diversidade de opiniões. “Quando falamos em bairro, estamos lidando com centenas de pessoas que têm formas ímpares de pensar. Muitos criticam e poucos ajudam”, resume.
Para ela, lutar pelo próprio bem-estar e do próximo é o principal motivo que uma pessoa pode ter para se candidatar à liderança de um bairro. “A pessoa nasce líder. É amar a sensação de que a conquista está ao alcance de suas mãos”, resume.
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Questão de honra
Nome: Olívia Arantes Souza
Idade: 59 anos
Profissão: Auxiliar de enfermagem
Filhos: 1
Função: Presidente da Associação de Moradores do Núcleo Presidente Geisel
Tempo de liderança: 8 meses
Principal desafio: Conseguir respaldo financeiro municipal para realizar obras
Ser líder de bairro é: “Amor em ajudar a comunidade”.
Sonhar com um bairro melhor e acreditar que é possível são duas atividades prediletas da auxiliar de enfermagem Olívia Arantes Souza, 59 anos, presidente da Associação de Moradores do Núcleo Presidente Geisel.
Ela esta à frente da organização comunitária há apenas 8 meses, mas já sente os reflexos das primeiras batalhas por melhorias no bairro já vencidas. “Bom, já conquistamos melhorias na iluminação, a reforma do Sambódromo e a revitalização do bosque. O próximo passo é trazer para o bairro uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), reformar o centro comunitário e trazer um mercado”, enumera ela, cheia de planos.
Vontade e inconformismo são sensações que norteiam o trabalho de Olívia. O anseio por mudanças teve início há cerca de dez anos, quando ela iniciou os trabalhos como colaboradora e atingiu o auge no ano passado, quando incentivada por outros moradores decidiu se candidatar à presidência da associação.
Para muitos, Olívia é uma supermulher: ela cuida da casa, dá atenção à filha, trabalha seis horas por dia fora de casa e ainda arruma tempo para fazer trabalho voluntário, sem se esquecer de que é uma mulher.
“Para mim, dar conta de tudo é uma questão de honra. Não vou dizer que é fácil, mas não me imagino tendo que escolher entre todas as atividades”, afirma.
Mas, para dar conta de tudo, Olívia tem um segredo. “É só não prometer as coisas às pessoas. Como liderança, por exemplo, eu ouço as reivindicações e deixo claro que farei o possível para atender, mas as pessoas também têm de entender que se não der certo eu também serei prejudicada, já que as mazelas do bairro atingem também a mim”, discursa.
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Líder por vocação
Nome: Célia Maria dos Santos Amano
Idade: 57 anos
Profissão: Estudante de pedagogia
Filhos: 1
Função: Presidente da Associação de Moradores da Vila Independência
Tempo de liderança: 8 anos (quatro gestões não consecutivas)
Principal desafio: Conquistar a confiança das pessoas
Ser líder de bairro é: “Algo que eu amo fazer”.
Cogitar a hipótese de ser substituída por alguém que não dê continuidade nos trabalhos desenvolvidos no bairro é algo que atormenta a vida da pensionista e estudante de pedagogia Célia Maria dos Santos Amano, 57 anos, atual presidente da Associação de Moradores da Vila Independência.
Isso porque sua gestão terminou no final do ano passado, mas ela ainda segue à frente da organização até que uma nova diretoria seja eleita. A briga, segundo ela, acontece pelo fato de existir muita gente disposta a assumir o comando da associação sem, na opinião dela, ter realmente vocação para o trabalho.
“Basta as pessoas perceberem que eu fui eleita quatro vezes e que amo o que faço para pensarem que é fácil ser líder de uma associação. Depois, assumem a presidência e não aguentam a pressão. Não tem problema, se eu não for eleita, vou fiscalizar”, retruca ela.
Célia atua na associação desde a sua fundação e aprendeu a deixar de lado o jeito delicado de mulher na hora de defender os interesses do bairro. Com este comportamento, consegue, além de algumas críticas, manter um centro comunitário equipado com piscina e com uma programação intensa e também trazer diversas melhorias para o bairro.
Para conseguir se manter na liderança do bairro, Célia encarou mais um desafio e voltou a estudar. Atualmente
ela cursa o terceiro termo de pedagogia em uma faculdade da cidade. “Sei que batalha é fundamental para alcançar objetivos, portanto, voltando a estudar terei muitos conhecimentos que poderão ser úteis para melhorar ainda mais o nosso bairro”, analisa.
Seu próximo desafio, caso consiga a reeleição, será trazer para o bairro um velório municipal. Nem que para isso seja preciso brigar.
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Choque cultural
Nome: Sidinea da Silva
Idade: 47 anos
Profissão: Cuidadora de idosos
Filhos: 2
Função: Presidente da Associação de Moradores da Vila Industrial, Pacífico, Paraíso, Alto Paraíso e Rocha
Tempo de liderança: 1 ano
Principal desafio: “Conscientizar as pessoas e fazer de cada dia uma conquista”.
Ser líder de bairro é: “Uma forma apaixonante de exercer a cidadania”.
As diferenças existentes entre Buenos Aires, na Argentina, onde morou por 10 anos, e a Vila Industrial, em Bauru, onde reside atualmente, foram logo notadas pela cuidadora de idosos Sidinea da Silva, 47 anos, presidente da Associação de Moradores da Vila Industrial, Pacífico, Paraíso, Alto Paraíso e Rocha.
“Aqui não tinha escola infantil próxima nem área de lazer; as ruas eram todas de terra e não passava ônibus. Como eu tinha uma filha pequena, senti muito a mudança”, compara Sidinea, que, inconformada com a situação, decidiu substituir o conforto que tinha no outro país pela luta diária vivida por quem participa de uma associação de moradores.
Após participar durante muito tempo como membro, ela se tornou presidente da organização há 1 ano, e está cheia de planos, dentre eles a construção de um colégio e de um núcleo de saúde no bairro.
A trajetória, ela sabe, é marcada por muitos desafios, conquistas e cobranças, mas nunca por resistência. “Às vezes as pessoas olham para mim e dizem: ‘E aí, quando saí o asfalto da minha rua?’, daí eu respondo: ‘Bom dia pra você também!’”, brinca.
Mesmo com a incômoda cobrança, Sidinea não tem do que reclamar daquilo que ela diz serem os ossos do ofício. A recompensa do trabalho vem em forma de benefícios para o bairro e preciosos amigos. E se a filha de Sidinea tiver crescido demais para utilizar a escola que um dia virá para o bairro, não tem problema. “O bairro sempre foi repleto de crianças”, responde ela.