Meu pai, da enxada, do violão.
Imagino meu pai quando criança, menino, adolescente,jovem valente.
Contava ele que foi uma criança que não recebeu carinho, menino solto, brincando nos rios e nas matas, ouvindo os pássaros, observando os animais.
Muito jovem já tinha a responsabilidade de um homem feito. Jovem homem amadurecido, lapidado pelos ventos da dureza da vida.
Sei do meu pai, homem tosco, matuto e doentiamente honesto. Braços fortes, enrijecidos pela lida na roça.
Mãos calejadas pela enxada, pelo enxadão, cavadeira e o arco de arroz.
Pernas longas e firmes de tanto andar atrás do arado e do plainel, que eram puxados por um animal num vaivém de sol a sol.
Esse meu pai de tantos calos nas mãos tocava lindamente um violão.
Único sonho realizado, tocar um violão.
Tocava nas noites, sentado em seu quarto, janela aberta, tocava para a lua e as estrelas.
Naqueles momentos acho que sonhava outro sonho.
Ser um artista, talvez!
Sonho ceifado pela dureza da vida.
Tinha os olhos pequenos, olhar distante, perdido. Olhar conformado, sem esperança, sem luz, sem vida.
Uma longa vida, que só o deixou após noventa e dois anos.
Ele me amava, assim como amava minha mãe e meus irmãos, do seu jeito brusco, mas amava.
Sinto saudades de ouvir o violão do seu Dionísio, meu pai...
Idalina Grego