Eles estão sempre ao lado de monitores e pacientes. Silenciosos, obedecem fielmente aos comandos. Mesmo quietos e, teoricamente, irracionais, os animais que trabalham em prol da regeneração humana também ensinam, conforme atestam especialistas e beneficiados pela terapia com cavalos, a equoterapia.
“Só falta eles falarem”, comenta a psicóloga Priscila Foger Marques, da Associação de Pais e Amigos do Excepcional (Apae) de Bauru, sobre a troca de sentimentos entre paciente e cavalos. “O ser vivo tem reações positivas e negativas. Os dois sentidos são trabalhados. Esse ser vivo reage de diferentes formas, ele é ativo”, argumenta a professora de educação física e consultora voluntária Marli Nadeiro.
Segundo ela, é fundamental que a terapia seja feita com um animal. “Poderíamos usar um touro mecânico que fizesse o movimento tridimensional. No entanto, o paciente não estaria num lugar como esse, nem teria as reações naturais de um ser vivo. Muitas dessas reações colaboram. Não é só o andar do cavalo, mas sim essa relação, que é muito forte, uma troca de sensações”, detalha.
Quem também atesta que os animais têm papel maior do que simples acessório no tratamento é a amazona Patrícia Janson Franciscato, que participa de competições de salto representando a Sociedade Hípica de Bauru (SHB).
Estudante do terceiro ano de biologia, Patrícia, além de lidar com os cavalos nos campeonatos em que participa, também estuda a fundo o comportamento animal e respectivos reflexos tanto em competições de alta performance quanto nos tratamentos de deficiências, caso da equoterapia.
Recentemente, a amazona concluiu um curso, realizado na Flórida, Estados Unidos, em que o comportamento animal é analisado com a observação de golfinhos. “Quis fazer esse curso para trazer isso em meus cavalos”, relaciona.
“Aprendemos a técnica do reforço positivo, que é, basicamente, recompensar o animal quando realiza o movimento que a gente quer”, explica. “No caso do golfinho, a gente reforça com peixe. Com cavalo é com agrado, seja com cenoura ou açúcar”, diferencia.
Contudo, reconhece, no esporte, na maioria dos casos, é aplicado o procedimento chamado de “reforço negativo”, quando o animal é estimulado com espora ou chicote. “No esporte a gente precisa de resposta rápida, pela alta performance. Mas eu não concordo, por isso muita gente vê o desempenho cair quando chega em prova. O cavalo não está ali porque gosta e sim por obrigação”, considera ela, que anda com cubos de açúcar para premiar os saltos bem feitos pelo seu cavalo, reforçando o respeito e confiança que deposita nele.
“Uma coisa que enxergo na equoterapia é essa relação de confiança e amizade que se forma entre a pessoa que monta e o cavalo. É um estímulo a mais, principalmente com criança”, observa a amazona. “Você sente um afeto do cavalo com a pessoa, isso é fato. Não é fazer a terapia por obrigação e sim o sentimento de encontrar o cavalo, o amigo”, define.
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Democratização
Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional visa a integração da equoterapia entre os tratamentos gratuitos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Caso aprovada e sancionada, a possível lei democratizaria o procedimento, disponibilizado por clínicas particulares ou por meio de instituições filantrópicas e parceiros, como a Apae e Sociedade Hípica de Bauru (SEB).
“Há uma demanda reprimida muito grande. Essa lei proporcionaria que mais pessoas tivessem acesso a terapia”, vislumbra o advogado Eduardo Jannone da Silva, que, na condição de cadeirante, testemunha os evidentes progressos trazidos pelo procedimento clínico.
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Prós e contras
Desenvolvimento e manifestação de afetividade, melhora de autoconfiança, autovalorização, coordenação psicomotora, autonomia, capacidade de escolha e decisão, mais habilidade de comunicação e sociabilização e bem-estar pelo contato com a natureza e animal são alguns dos benefícios da equoterapia, que, no caso do procedimento da Apae nas dependências da Sociedade Hípica de Bauru (SEB), ocorrerá em ampla e tranquila área, cercada de verde.
Contudo, algumas contraindicações devem ser levadas em conta. “A subluxação (quando há separação parcial de superfícies articulares) é uma delas”, especifica a psicóloga Priscila Foger Marques, da escola de educação especial em Bauru. “Mas há de ser feito estudo de caso”, ressalva.
Patologias degenerativas e obesidade também seriam algumas contraindicações. Contudo, comenta Priscila, todos esses fatores também são sujeitos a estudos personalizados. “É necessária avaliação médica, psicológica e fisioterápica, para que o plano seja feito realimente para beneficiar a reabilitação e educação”, aponta.
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Parceria
Apoiada numa bem-sucedida experiência nesse tipo de tratamento, a Apae de Bauru, pioneira na equoterapia, retoma as atividades, antes realizadas em dependência cedida pela Polícia Militar, no próximo mês. Após um hiato de, aproximadamente, um ano, os portadores de necessidades especiais ligados à instituição farão o tratamento nas dependências da Sociedade Hípica de Bauru (SHB), após recente acordo firmado entre a escola de educação especial e o diretor de hipismo do clube, Alcides Franciscato Júnior.
“A Hípica nos cede o espaço e profissionais para cuidar do animal, além de todo um apoio logístico, com a estrutura do local. Ainda há o ensinamento que todo o nosso pessoal tem sobre o relacionamento com o animal”, enfatiza o vice-presidente da Apae-Bauru, Braz Melero.
Já a escola, enfatiza, entra com uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos, fisioterapeutas e professores de educação física, que atuam ao lado dos equitadores da SHB. “Buscamos a parceria com a Hípica pela proximidade que tem com a Apae e também por sua vocação nessa área. O clube mantém projetos relacionados à sociedade em seu entorno. Essa responsabilidade social foi um fator estimulador para que a gente os procurasse”, atribui.
• Serviço
Mais informações sobre o tratamento de equoterapia na Apae/Bauru podem ser obtidas pelo telefone (14) 3106-1250.