As águas de março imortalizadas na canção de Tom Jobim já não são mais as mesmas. Caracterizada por chuvas frequentes em Bauru, este período está sendo o mais seco dos últimos tempos neste ano. Como consequência associada ao forte calor, até o final da tarde de ontem o Corpo de Bombeiros de Bauru havia recebido 60 chamados para combater queimadas em vários bairros da cidade e municípios da região. Nos últimos dias, o número de telefonemas tem permanecido na casa dos 40.
Mesmo menor que o pico registrado ontem, a média é considerada extrema e totalmente atípica, já que o número de ocorrências de fogo em mato costuma oscilar entre 20 e 30 no período considerado mais problemático, de abril a agosto, quando ocorrem estiagens na cidade. Entre os motivos que podem justificar o fenômeno, além das chuvas escassas dos últimos dias, estão os temporais do final do ano passado, a falta de conscientização da população e a deficiência na fiscalização de terrenos particulares sem a devida manutenção.
Ontem, um bombeiro preocupado com a qualidade do serviço prestado à população decidiu revelar ao JC as dificuldades enfrentadas pelas equipes para atacar tantos focos de incêndio em um espaço tão curto de tempo. Segundo ele, que preferiu não ter sua identidade divulgada, em Bauru há apenas duas viaturas de combate a fogo, auxiliadas por duas motocicletas (que também são destacadas para ocorrências de resgate) e um veículo Land Rover.
Geralmente, os bombeiros que se deslocam nas motos ou no carro seguem equipados com abafadores em apoio aos caminhões. As duas únicas viaturas que carregam água (uma com capacidade para 18 mil litros e outra para apenas 500 litros), por sua vez, precisam estar presentes em todas as ocorrências.
“Se a situação normalmente já é difícil, com esse aumento descontrolado do número de focos, as condições de trabalho ficam insustentáveis. Hoje (ontem), todo mundo ficou sem almoço porque não parou de trabalhar um minuto sequer”, denuncia o bombeiro. Ao todo, por turno, trabalham cerca de 17 profissionais no Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (Cobom), responsáveis por atender todos os chamados originados em Bauru e municípios vizinhos como Piratininga, Cabrália Paulista, Duartina, Ubirajara, Lucianópolis, Arealva, Iacanga, Tibiriçá, Agudos, Paulistânia, Pirajuí, Avaí e Reginópolis.
Critérios
Diante da insuficiência de pessoal e de equipamentos, o bombeiro conta que o atendimento tem de ser realizado de acordo com critérios para estabelecer prioridades. “Se há risco de pegar fogo na casa, se há hospital, escola ou creche por perto, a gente atende primeiro. Infelizmente, não dá para prestar socorro para todo mundo ao mesmo tempo”, lamenta.
Por volta das 16h30, os bombeiros registraram focos simultâneos em uma fazenda em Piratininga, no trevo de acesso à Cabrália Paulista, em uma área próxima ao trevo de Iacanga, em uma estrada vicinal que liga Avaí a Duartina e no trevo de Paulistânia. Pouco antes das 17h, a reportagem também constatou três queimadas em terrenos muito próximos, nas imediações da rotatória que interliga as avenidas Alfredo Maia, Castelo Branco e Duque de Caxias.
Ao cair da noite, em muitos pontos da cidade, era possível perceber a fumaça no horizonte, como se estivesse concentrada em uma nuvem baixa. Mesmo quem não viu os focos de incêndio de perto sentiu o problema, que pode trazer desconforto para a visão e afetar as mucosas e o sistema respiratório, sentir o ar poluído.
Morador da Vila Universitária, o autônomo Rubens Salles conta que sentiu os olhos arderem durante todo o dia, ontem, como nunca havia ocorrido. “Estava insuportável, tive de usar soro fisiológico o dia todo. Estava difícil enxergar e respirar. A impressão é que a cidade inteira estava em chamas”, relata.
Incêndio destrói residência
Ontem de manhã, o Corpo de Bombeiros foi acionado devido a um incêndio que consumia uma residência localizada na quadra 4 da rua Cabo Severino da Costa, na Vila Nova Esperança. A casa era construída parte em alvenaria e outra em madeira, sendo esta última totalmente destruída pelo fogo.
Paulo Sérgio Pissolotto, morador da casa vizinha, o incêndio começou por volta das 9h30. Ele informou que acionou os Bombeiros assim que notou que a casa estava em chamas. “No começo eu achei que estavam apenas queimando entulho, mas, depois que percebi que a casa estava em chamas, liguei para os Bombeiros”, relata.
Metade da casa era de madeira e foi totalmente carbonizada, já a parte de alvenaria não sofreu tantos danos estruturais, mas o telhado cedeu. A equipe dos Bombeiros chegou a tempo de conseguir conter as chamas e não deixar o incêndio se alastrar para outras residências ao redor.
Conversando com moradores da região que acompanhavam a operação, a reportagem do JC apurou que uma mulher e seu filho moravam na casa mas que raramente são vistos entrando ou saindo da residência. Os vizinhos disseram que não têm contato com os moradores e nem sequer sabem os nomes dos dois. “Moro aqui faz tempo mas nunca conversei com nenhum dos dois”, declarou Paulo Sérgio.
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Mudança climática influencia o início da “estação fumaça”
Além da falta de conscientização da população, que continua queimando lixo e entulho em terrenos baldios, a antecipação do início da “estação fumaça” também deve-se, em grande parte, ao comportamento climático desde o final do ano passado. Em dezembro de 2009, quando do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) registrou uma precipitação acumulada de 319,5 milímetros, a cidade sofreu com quedas de galhos e árvores inteiras, mas muito deste material permanece até hoje sem ser recolhido, conforme divulgou recentemente o JC. O montante de chuva – que representa mais que o dobro do registrado em dezembro de 2008 e índice recorde da década – também acelerou o crescimento dos matagais nos terrenos.
Para consolidar o cenário propício para as queimadas, o mês de fevereiro de 2010 foi o mais seco dos últimos dez anos, com precipitação acumulada de apenas 42,7 milímetros, antes os 149,1 registrados no mesmo período do ano passado. Já nos primeiros oito dias de março choveu apenas 4,1 milímetros na cidade e não caiu uma gota sequer nos últimos cinco dias.
Como resultado, o mato que estava alto começou a secar, o que aumentou a tarefa que cabe aos fiscais da prefeitura: autuar os proprietários que não procedem à manutenção de suas áreas privadas.
“Cerca de 30 dias atrás, uma pessoa ligou para os bombeiros contando que fazia quatro meses que restos de uma árvore que havia sido cortada estavavam em frente a casa dela. Colocaram fogo e toda a rede de alta tensão foi queimada. Foi um prejuízo grande que podia ser evitado”, pondera o bombeiro entrevistado pelo JC.
Mas quem ateia o fogo geralmente não se arrisca e pratica o delito sem ser notado pela vizinhança, muito menos por um dos três funcionários de que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) dispõe para realizar as autuações. Se for pego em flagrante, no entanto, o autor fica sujeito a multa que varia entre R$ 500,00 a R$ 50 milhões, além de poder ser punido por crime ambiental, com penas que vão de três meses a dois anos de prisão, conforme a gravidade do caso.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da prefeitura afirmou que não possui dados compilados a respeito do número de autuações aplicadas em terrenos com mato alto em 2010. No entanto, no que tange à manutenção das áreas verdes do município, a Semma informa que, neste ano, foram capinados 5,678 milhões de metros quadrados, o equivalente a 526 campos de futebol.
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Novo comandante toma posse e promete mais viaturas
Em solenidade de troca de comando do 12.º Grupamento de Bombeiros, ontem, o tenente-coronel José Guerxis de Aguiar, que assumiu o cargo, afirmou que ao menos uma nova viatura de combate a incêndio deverá entrar em atividade em Bauru ainda neste ano. Segundo ele, dois chassis para veículos deste porte já foram adquiridos para que os caminhões possam ser futuramente montados.
“Nossa maior preocupação, neste momento, será aumentar o número de viaturas para que os bombeiros possam prestar um serviço de qualidade. Dentro de seis meses, acredito que o processo licitatório possa ser concluído e a primeira viatura já entrar em funcionamento em Bauru”, prevê.
Para custear o investimento, o comandante vai contar com o Fundo de Bombeiros, criado no final de 2003. Desde a implementação da cobrança, os moradores pagam anualmente, junto ao Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), a “taxa de bombeiro”. Todo dinheiro arrecadado é destinado ao fundo, que é gerenciado por um conselho composto por bombeiros e civis.
Ao mesmo tempo em que pretende ampliar a quantidade de equipamentos, a intenção do novo comando é adotar estratégias para aumentar as equipes de trabalho que possam operar essas viaturas. “Estou trazendo experiências de cidades que mantêm bombeiros municipais e também treinam funcionários públicos municipais e voluntários para atuar em dias críticos como o de hoje (ontem). Acredito que essa necessidade será equacionada facilmente porque temos um bom relacionamento com a Secretaria de Meio Ambiente (Semma)”, avalia.
Outra meta para este ano, segundo Guerxis, é o investimento em atividades educativas e preventivas junto à população, por meio de palestras e treinamentos, como forma de minimizar o número de incêndios provocados propositadamente. “Queremos que a própria comunidade ajude os bombeiros. Mas, se a situação não melhorar com conscientização, outras medidas mais amargas podem ser tomadas para penalizar os inescrupulosos que ateiam fogo em terrenos”, avisa.