Política

Emdurb investiga se chumbo em água foi por falha em coleta

Por Luciana La Fortezza | Com Da Redação
| Tempo de leitura: 6 min

A Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) não descarta ter havido falha na coleta das amostras de água, cujo resultado apontou contaminação por chumbo nos 14 poços situados no aterro sanitário. Conforme o JC divulgou, os últimos laudos obtidos pela empresa, recebidos em janeiro, demonstram a presença do metal no Aquífero Bauru, responsável por abastecer os pontos monitorados.

Vários outros parâmetros, inclusive referentes a metais, também teriam apresentado índices altos. Segundo a reportagem apurou, entre eles o cádmio, um metal ainda mais tóxico que o chumbo. A situação levou a Cetesb a também a analisar amostras dos pontos, procedimento que deve ser feito ainda nesta semana com o apoio de técnicos de São Paulo. A Emdurb ainda providenciará contraprovas.

Para que não reste dúvida, as novas amostras colhidas pela Emdurb serão encaminhadas a três laboratórios, inclusive o de Saneamento do Departamento de Engenharia da Universidade de São Paulo (USP), situado em São Carlos (leia matéria nesta página). É dele o resultado que apontou a contaminação. Assim como a Emdurb, o próprio laboratório investiga eventuais problemas referentes à coleta da água, ocorrida em novembro do ano passado. É possível que entre a entrega dos frascos e a coleta tenha havido algum contratempo.

“Temos nossas análises periódicas. No mês de novembro, deu anormal em todas as amostras. Nunca deu alteração desproporcional. A gente acredita que foi um problema na coleta desse recurso hídrico. Foi alguma contaminação no momento da coleta. Em todos os anos de monitoramento, estava dentro do acordo. De repente, em menos de um ano, deu alteração igual em todos os poços. É anormal. Se tivesse dado em um, dois ou três poços alguma alteração, aí sim tenderia a uma normalidade”, explica Mateus Pereira das Neves, biólogo do Departamento de Limpeza Pública da Emdurb.

Ele ressalta que a massa subterrânea não se movimenta de forma homogênea. E o chumbo, especificamente, tem movimentação extremamente lenta, informa. “Ele vem dando traços, vem se mostrando. Não aparece assim de repente. Por isso a gente acredita que possa ter havido falha em algum momento”, acrescenta Neves. Até a validade e qualidade dos reagentes serão analisadas. No entanto, se as novas análises descartarem contaminação, é mais provável que o problema tenha se concentrado na coleta, cujo trâmite é extremamente rigoroso e exige planejamento criterioso.

O monitoramento analisa várias outras características da água. Caso a contaminação seja reiterada nos novos testes, caberá à Emdurb apresentar à Cetesb um plano de contenção. Neves acredita que em 30 dias a Emdurb já possa divulgar o resultado final. “Não podemos especular nada. Mas se ocorrer alguma contaminação no aterro sanitário ou em qualquer outro lugar do Brasil ou do Estado, normalmente dá para fazer o tratamento no local”, conclui o biólogo.

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Laudos não são apresentados

Os laudos que apontam a presença de chumbo nas águas no Aquífero Bauru, após análise dos poços localizados no aterro sanitário, não foram apresentados pela Emdurb, que também não informou percentuais. Extraoficialmente sabe-se que teriam apontado valor pelo menos 38% acima do limite permitido. De acordo com a Cetesb, deixa de ser potável a água subterrânea que apresentar mais de 10 microgramas de chumbo por litro.

Os números aferidos em monitoramentos periódicos são analisados pela Cetesb que, ao menos uma vez ao ano, tem de avaliar o resultado físico-químico das águas superficiais e do subsolo. O ideal é que o procedimento seja realizado, em média, duas vezes ao ano. Porém, como a Emdurb tem licença antiga, datada de 2005, a exigência de apresentação de dados semestralmente não constaria no corpo do texto, conforme o JC apurou junto à Cetesb.

Não está descartada, no entanto, a possibilidade de uma carta ter sido anexada ao processo solicitando análises duas vezes ao ano. Em caso de desrespeito, a Emdurb pode sofrer sanções que vão de advertência à multa.

Outros dados

Outros dados técnicos, inclusive a profundidade dos poços, também não foram fornecidos pela Emdurb. Conforme o JC apurou, eles têm entre dez e 30 metros de profundidade. Nas informações oficiais serão apresentadas à Cetesb, que concluirá um relatório já em andamento e solicitará os dados. A pedido da Emdurb, eles foram elaborados pelo laboratório de Saneamento do Departamento de Engenharia da Universidade de São Paulo (USP), situado em São Carlos, ainda não certificado pelo Inmetro.

Desde o ano passado, a Cetesb só recebe resultado de laboratórios certificados, conforme estabeleceu a Secretaria do Estado do Meio Ambiente. Até agosto, a USP deve encaminhar a papelada ao instituto para obter a certificação. Mas segundo informações obtidas junto à universidade, apenas algumas agências da Cetesb exigem a regularização porque o volume de laboratórios certificados no Estado é pequeno para a demanda. A USP tem sido referência para a Emdurb para a análise das águas.

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Não há motivo de alarde, diz estatal

A Emdurb comunicou, por meio de notas, que não há motivos para alarde. Segundo ela, o Aquífero Guarani, onde existe a coleta de água para abastecimento urbano, situa-se a centenas de metros do Aquífero Bauru, que abastece os poços monitorados (onde o problema foi constatado). Laudo recente, de janeiro deste ano, apresentado por uma empresa de doces situada próxima às unidades prisionais (por sua vez localizadas nas imediações do aterro) atesta a qualidade da água para consumo humano.

O documento assinado por uma empresa particular e apresentado ontem à redação desmente a informação inicialmente veiculada pelo JC de que a água daquela região, apontada como contaminada, é consumida pelas duas penitenciárias estaduais – P1 e P2 - e pela fábrica. Tanto as unidades prisionais quanto o estabelecimento são abastecidos por um poço artesiano muito mais profundo do que os poços monitorados pela Emdurb - onde o problema foi constatado. A distância é tanta que os dois aquíferos são separados entre eles pela Formação Serra Geral, constituída por rochas basálticas, altamente impermeáveis, informa a Emdurb. Segundo a assessoria de imprensa da empresa, o aterro sanitário de Bauru é um dos mais estudados no Brasil sobre técnicas de avaliação da poluição e contaminação.

“A Emdurb sempre incentivou e trabalhou em conjunto, havendo sempre cooperação entre o meio técnico e acadêmico. As águas do entorno do aterro, tanto subterrâneas como superficiais, vêm sendo monitoradas desde 2001, graças à parceria da Emdurb com as universidades de São Paulo (USP) e Estadual Paulista (Unesp)”, consta em trecho do material enviado.

A própria assessoria de imprensa admite que, desde quando o aterro sanitário foi implantado, em 1992, a impermeabilização de base aprovada na época, com solo local compactado e camada de asfalto diluído, era insuficiente para reter os líquidos percolados pelos resíduos dispostos no aterro (chorume). Por isso, hoje é exigida a colocação de uma geomembrana para impermeabilizar a base dos aterros atuais. No entanto, em 1992, essa tecnologia era ainda praticamente inexistente no Brasil, acrescenta o departamento de comunicação.

Técnicos da Emdurb não sabem quanto a empresa desembolsaria hoje para contar com tal tecnologia, atualmente disponível. O valor teria de ser cotado. Mas os estudos feitos pela Unesp e USP mostram que o solo sobre o qual o aterro de Bauru está instalado possui propriedades naturais de atenuação de alguns contaminantes, sendo o chumbo um desses casos, informou a assessoria.

A Emdurb garante que não há risco algum de as águas superficiais do aterro estarem contaminando o Aquífero Guarani. Em função desses fatos, a empresa comunica a população que não há motivo para alarde, porque é um assunto bastante conhecido e estudado cientificamente, em parceria com as melhores Universidades do Estado de São Paulo. “Estudos esses que deverão continuar, para assim obtermos as melhores e mais confiáveis respostas sobre a problemática da disposição de resíduos no Brasil e no Mundo”, conclui o texto.

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