Um amigo brasileiro me pediu para escrever sobre o terremoto no Chile. Confesso, esta não é uma tarefa fácil. Talvez porque os acontecimentos estejam muito presentes na memória, ou porque novas informações chegam a cada instante, o ato de escrever torna-se mais difícil. Ser testemunha de algo tão destruidor como um terremoto é uma experiência muito difícil de ser compreendida; é algo que transforma a sequência linear dos acontecimentos, tudo pára, tudo recomeça a partir daquele instante. A rotina, os compromissos agendados, a vida em si evapora-se para ceder espaço à grandeza que este fato representa - neste caso, quase três minutos de tremor e destruição que presenciamos no dia 27 de fevereiro, às 3 e 30 da manhã. Os desastres naturais - furacões, terremotos, maremotos, tsunamis, enchentes, tornados, etc, possuem este poder avassalador de transformar a nossa vida cotidiana, ao menos por um certo tempo. Quanto mais grave seus efeitos, mais tempo ocupam. Depois, tudo volta à normalidade, à rotina, porque assim é o homem, mestre da sobrevivência em tempos difíceis. Mas alguma coisa nele fica diferente.
As contingências já me fizeram testemunhar vários momentos de ira da natureza. Foram três furacões (Katrina, Wilma e Ivan) nos cinco anos que vivimos em Miami, e, agora, este terremoto chileno. Foram experiências aterradoras. Compartilhar o cenário com um furacão é participar de uma visão apocalíptica. A sensação é de que somos apenas frágeis expectadores de algo muito maior e mais forte que toda a obra humana. Porém, sabemos quando um furacão se aproxima, nos preparamos para este espetáculo anunciado, nos trancamos em nossas casas com água e comida suficiente para sobrevivermos por vários dias, nos protegemos dentro de nossas paredes, nossa fortaleza, e esperamos, atônitos por largas horas, para que aquela força gigantesca se afaste do nosso cotidiano. Se temos sorte, a construção humana é mais forte que a fúria da natureza, e sobrevivemos. E depois, lentamente, tudo volta ao normal. E a vida continua. O terremoto é muito diferente, ele não manda aviso, e te encontra de surpresa.
Na madrugada daquele sábado, acordei com a casa, a parede, o chão, tudo balançando muito forte. Os livros caindo da estante, os alarmes disparando. Assustada, agarrei os dois meninos nos braços e corri para o quintal, esperando passar. Foram largos minutos. No terremoto a casa deixa de ser uma fortaleza e passa a ser uma ameaça, uma armadilha. São as paredes e teto que podem te ferir ou matar. Ficamos parados, assistindo, talvez testemunhar a completa destruição da nossa casa. Nossa casa, e tudo o que havia dentro dela – uma existência singular de lembranças e cores, passou a ser uma mistura de cimento, vidro, madeira, tecido, plástico, metal e papel, que podia ser destruída em segundos e não me importaria nada. Afinal, as únicas coisas que me importavam já estavam seguras, nos meus braços. Passado o susto, recomeçar, reconstruir a vida, voltar à rotina. Os amigos trocam experiências, cada um conta o que sentiu, como reagiu, como recuperou-se. Cada um tem o seu relato para compartir. Com o tempo, as informações são detalhadas. Somos informados das casas, edifícios e pontes que caíram. Somos informados do tsunami que atacou violentamente a orla quase trinta minutos depois do terremoto e centenas de pessoas morreram. As cidades destruídas precisam da ajuda do exército para proteger a população dos saques e crimes dos próprios moradores. Por todo o país são iniciadas campanhas para arrecadar alimento, roupa e dinheiro para ajudar na recuperação das famílias atingidas.
Conversar com as pessoas, assistir as entrevistas dos moradores na televisão, ler os jornais, conhecer mais e mais relatos, estas histórias compartilhadas de tristeza, medo, coragem, impotência e solidariedade, nos permitem conhecer as consequências do desastre, e aprender sobre a incrível força que cada ser humano possui. A vida continua. Porém, são os relatos ausentes, daqueles que não puderam compartilhar seus últimos momentos, o que sentiram, como agonizaram, são os que deixam o registro mais duradouro na memória da humanidade. Colocar-se no lugar das mais de setecentas pessoas que perderam a vida, e imaginar estes relatos que nunca aconteceram, nos permitem voltar ao nosso cotidiano mais humildes e solidários. A vida continua, mas agora é mais humana que antes.
A autora, Raquel Gonçalves, é escritora e vive em Santiago há três anos