Havana - Cuba acusou o Parlamento Europeu de demonstrar “grande cinismo” ontem ao condenar a ilha comunista pela morte de um preso que estava em greve de fome e prometeu não se curvar à pressão internacional pelos direitos humanos.
A Assembleia Nacional cubana disse em um comunicado que Cuba tinha um histórico meritório na “luta pela vida humana” e disse que a ação do Parlamento Europeu seguia “uma campanha orquestrada pela poderosa mídia europeia.”
O organismo eleito do bloco de 27 nações da União Europeia aprovou uma resolução condenando Cuba pela morte “evitável e cruel” do preso político Orlando Zapata Tamayo, que morreu em 23 de fevereiro após uma greve de fome de 85 dias por melhores condições na prisão.
Sua morte provocou um clamor internacional contra o governo de Cuba e pedidos para libertar os presos políticos do país. E ainda expressou preocupação com o “estado alarmante” de outro opositor do governo de Cuba, Guillermo Farinas (leia abaixo).
Cuba disse que o Parlamento Europeu era culpado de “grande cinismo” porque os membros da UE teriam tido atitudes que causaram a morte de pessoas pobres nos países em desenvolvimento.
“Incontáveis vidas, especialmente de crianças, foram perdidas nos países pobres em razão de os países ricos representados no Parlamento Europeu não honrarem seus compromissos de ajuda ao desenvolvimento”, afirmou o governo cubano. “Se há uma área na qual nosso país não precisa se defender com palavras, porque a realidade é inquestionável, é a sua luta pela vida humana e não apenas para os nascidos em Cuba, mas também em outros lugares”, disse, referindo-se à prática de Havana de fornecer médicos para países mais pobres.
EUA condenam
A deterioração dos direitos humanos em Cuba foi retratada em tons sombrios no Relatório de Direitos Humanos do governo dos EUA para o ano de 2009, divulgado ontem em Washington.
Brasil recebeu carta
“O Brasil se rege pela não ingerência nos assuntos internos de outros países e será esse princípio que guiará a reação do presidente nesse caso”, disse Marcelo Baumbach, ao confirmar que chegou às mãos do Planalto carta na qual presos políticos cubanos pedem que Lula interceda com o governo cubano por sua libertação, mas afirmar que ele ainda não a leu. Segundo Baumbach, a carta seguirá o trâmite normal e será o próprio presidente quem decidirá se vai respondê-la ou não.
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Dissidente cubano é hospitalizado
Havana - O dissidente cubano Guillermo Fariñas foi hospitalizado ontem na cidade de Santa Clara, após desmaiar no 16o dia de sua greve de fome pela liberdade de presos políticos em Cuba, disse seu porta-voz Licet Zamora.
Fariñas, um psicólogo de 48 anos, iniciou sua greve de fome após a morte, há duas semanas, do preso político Orlando Zapata depois de 85 dias de jejum, o que reavivou as críticas internacionais sobre a situação dos direitos humanos no governo de Raúl Castro.
“Ao meio-dia de ontem foi hospitalizado novamente Fariñas, que desmaiou, tinha forte dor nos rins”, disse à reportagem Zamora por telefone.
Segundo ele, Fariñas já recuperou a consciência e está sendo acompanhado em uma sala de cuidados intensivos em um hospital.
Não é a primeira greve de fome de Fariñas. Em 2006, ele protagonizou um jejum por vários meses em defesa do livre acesso à Internet. Esta é a 23ª vez que faz greve de fome.
Grupos de direitos humanos na ilha afirmam que há cerca de 200 presos políticos em cadeias cubanas.
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Filha de Che ironiza greve de fome
Salvador - A pediatra cubana Aleida Guevara March, filha do líder revolucionário Ernesto Che Guevara, afirmou ontem em Salvador que os dissidentes políticos detidos em Cuba que fazem greve de fome são “delinquentes comuns” e criticou os grupos de direitos humanos que pedem a libertação deles.
As críticas de Aleida foram feitas em palestra promovida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) num auditório da Universidade Federal da Bahia.
Para a pediatra, os grevistas são “personagens criados pela mídia para caluniar Cuba” e recebem dinheiro de empresários dos EUA e da Europa que são “contrários à Revolução Cubana”.
“Normalmente um preso faz greve de fome para conseguir sua liberdade. Mas este queria TV, telefone e cozinha. Isso é absurdo, ele deveria ter sido tratado por psiquiatras. Não era um preso político”, disse ela, em referência a Orlando Zapata Tamayo, que morreu em fevereiro após 85 dias de greve de fome.
Aleida também reclamou de grupos de defesa dos direitos humanos que demandam a libertação de quase 30 oposicionistas -reivindicação, por exemplo, do dissidente Guillermo Fariñas, atualmente em greve de fome.
Ela citou o caso de uma epidemia de dengue na década de 1980 que matou 101 crianças em Cuba, que, segundo ela, foi causada por agentes da CIA (inteligência dos EUA).
“Que associação de direitos humanos fez algo pelo povo cubano contra aquele e outros crimes? E com que direito eles agora criticam algo sobre a soberania de Cuba?”, perguntou.