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Xi, ganhamos!

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O rei Pirro II (295 a.C.) tinha a ambição de ampliar o seu reino chamado Épiro, em direção à Macedônia. Bem sucedido, depois voltou seus exércitos contra Roma, a maior potência da sua época. A cada vitória perdia tantos soldados, equipamentos e recursos do tesouro que o rei acabou voltando, derrotado, para a sua posição de origem por falta de flechas, lanças e víveres. Ao ver os estragos sofridos pelo seu exército na sua última incursão militar vencedora, lamentou-se: “Outra vitória como essa e estaremos todos perdidos”. A “vitória de Pirro” parece muito com o caso recente da Organização Mundial de Comércio que deu ganho de causa ao Brasil, autorizado a retaliar comercialmente os Estados Unidos. Tudo por causa dos subsídios que os americanos dão aos seus produtores de algodão. O Brasil, com essa vitória jurídica ganhou o direito de causar dificuldades às importações de produtos dos EUA, até um valor aproximado de U$ 800 milhões.

A racionalidade dos retaliadores é a seguinte: punindo as exportações norte-americanas, o lucro de determinadas empresas irá cair. Sendo assim, essas empresas pressionarão o governo norte-americano para que este reduza as facilidades fiscais dadas ao plantio e industrialização do algodão. O Brasil, assim, poderá vender o seu algodão a preços mais competitivos no mercado internacional.

Acontece que mudanças na política do agronegócio dependem do Congresso em Washington, apinhado de senadores que defendem os interesses dos plantadores. Os EUA são um país onde a agricultura é quase tão forte quanto a indústria, embora não pareça. Também devemos lembrar que as exportações americanas para o Brasil representam menos de 3% das vendas dos EUA ao exterior. Ao reverso, as exportações brasileiras para os Estados Unidos representam 36,4% dos nossos negócios internacionais. Se onerarmos ainda mais as alíquotas de importação do trigo que vem de lá, o pãozinho também sobe de preço nas padarias. O macarrão e a pizza de domingo ficarão mais caros. É impossível que as nossas autoridades do Comércio Exterior não tenham levado em conta que o aumento de impostos para a importação de remédios tornará a vida do doente mais difícil. O governo Lula ameaça quebrar a patente dos laboratórios e produzir os remédios aqui, a preços mais baratos sem os royalties. Seria um marketing a mais para ampliar a fama de “país pirata” que temos. Roubar fórmulas que custaram milhões, ou talvez bilhões de dólares em pesquisas pouco vai adiantar. Sem os sais e as matérias-primas que os laboratórios internacionais oligopolizam não será fácil produzir remédios. Eles não vão nos vender os insumos. Óbvio. Essa política da retaliação será boa para alguns fabricantes nacionais que irão se beneficiar diante de mais essa barreira à competição. Livre da concorrência externa a indústria elevará os seus preços, sem compromisso com a qualidade.

O Brasil ganhou dos EUA. Vitória! O rato ruge. A política verde-amarela começa a roncar grosso até no Oriente. Lula vai se reencontrar com o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad e apoiar seus sonhos de acesso à tecnologia nuclear para “fins pacíficos”. Fazemos mesura a Ahmadinejad meses após ele ter sido reeleito em um pleito comprovadamente fraudado. Nosso presidente Lula chegou a simplificar a questão eleitoral iraniana à queixa natural de quem é derrotado nas urnas: a uma mera “briga entre corinthianos e palmeirenses”. O Brasil também briga para não reconhecer a eleição presidencial em Honduras. Desconsidera que ela se realizou de forma limpa e representa a vontade do povo hondurenho. Até o deposto Zelaya, hóspede durante mais de três meses da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, já se conformou com o exílio. Lula insiste em apoiar o latifundiário hondurenho que quis se aboletar no poder por mais um mandato, o que é vedado pela constituição daquele país.

Em Cuba “ganhamos” os irmãos Fidel e Raul Castro que nos permitiram emprestar dinheiro do BNDES para ampliar o porto cubano. Em vez de pedir um minuto de silêncio para reverenciar a morte do dissidente Orlando Zapata, Lula falou um minuto para comparar presos políticos com delinquentes comuns. Lula está financiando o metrô de Hugo Chavez em Caracas, mas faltam recursos para o metrô de São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, este negado por Dilma Rousseff. Lula perdoou generosamente as dívidas de vários países para com o Brasil: Nicarágua, Moçambique, Nigéria, Bolívia, Gabão, Cabo Verde. A prodigalidade ultrapassa R$ 1,1 bilhão. Agora só falta Lula decidir sobre a sorte do terrorista Cesare Battisti. Deixar Battisti solto em Copacabana, apesar de toda a pressão mundial, será mais uma “vitória” da soberania brasileira.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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