Regional

Consórcio entre Ciesp e Unesp resolveria o problema regional

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Há cinco anos, Bauru estuda e projeta uma usina de lixo para atender a cerca de 40 municípios da região, num raio de 100 quilômetros, e abranger cerca de 700 mil pessoas. O investimento previsto é de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões.

O projeto - idealizado pela Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a diretoria regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) - sairia do papel para sua concretização por meio do sistema de Parceria Público Privada (PPP). A previsão é de processar mil toneladas de lixo ao dia, o equivalente ao volume transportado por 50 carretas de lixo por dia.

“Esse projeto contempla o aproveitamento dos resíduos e da construção civil. Os resíduos de saúde (como lixo hospitalar) serão incinerados para geração de energia e os resíduos de solos urbanos também passarão por incineradores. O entulho da construção civil será reaproveitado. As cinzas da incineração vão gerar subprodutos para as prefeituras, para a confecção de guias, lajotas e bloquetes. As cinzas estão muito próximas do cimento, pois quando a queima ocorre a 1.800 graus gera um agregado do cimento. Com mais um pouco de adição química se obtém cimento”, explica o diretor da Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru, Jair Manfrinato.

Educação

Segundo ele, a ideia é que uma empresa privada assuma o investimento através de uma PPP e faça todo o tratamento dos resíduos, da poluição. O projeto é mais amplo e prevê ainda uma cooperativa em cada uma das cidades envolvidas.

“Tem a parte educacional que deverá ser feita junto às escolas públicas e privadas para mudar os hábitos das famílias. Orientar sobre a separação do lixo e outras coisas. É preciso que ocorra uma mudança cultural. Atualmente se recicla só 35% do lixo. O Brasil não consegue reciclar nem 5% de todo o lixo, não temos cultura de fazer a separação do lixo em casa. A população ainda joga tudo num saco, amarra a boca e põe na lixeira. Temos que educar a criança na escola para que ela faça a família mudar de comportamento”, opina Manfrinato.

O projeto foi iniciado em 2005 pelos integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico Regional (Coder), grupo formado no Ciesp de Bauru. “Criamos esse conselho exatamente para discutir políticas públicas regionais. Discutir políticas públicas tem que ser de forma regionalizada, porque o recurso é pequeno e os benefícios atingem mais pessoas.”

O primeiro passo foi dado, mas o projeto não saiu do papel. “Discutimos junto com os prefeitos, mas o problema do lixo é complexo e exige investimentos. Bauru foi escolhida para ser sede por questão de logística.”

Segundo Manfrinato, existe um compromisso do prefeito de Bauru de viabilizar o consórcio. “O consórcio só se torna viável se Bauru entrar. As outras cidades de menor porte entram para alimentar a usina. Cada município participante assume o compromisso de entregar tantas toneladas de lixo/dia. Tem que ter o compromisso da entrega da matéria-prima. A prefeitura fica responsável pela educação e pela entrega do lixo e reciclagem.”

O prefeito já assinou o protocolo de intenções e a documentação está sendo estudado pela departamento jurídico para manifestação. “Nós já cobramos o jurídico do parecer. Se for favorável nós vamos constituir o consórcio. As cidades menores não têm o que fazer com o lixo. Eles estão fazendo barbaridade. O que muitas cidades fazem é coisa criminosa.”

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Parque industrial

A usina de lixo projetada para Bauru teria um chão de fábrica de 30 mil metros quadrados, além da área para reciclagem de entulho de construção, que poderia utilizar outros 10 mil metros. O projeto todo deve ocupar uma área de aproximadamente 50 mil metros quadrados. O local já foi escolhido, próximo ao atual aterro sanitário e a Penitenciária 2 de Bauru.

“Vamos gerar energia. Existe a possibilidade de gerar de 40 megawatts a 50 megawatts de energia (com o processamento do lixo), que seria vendida para uma concessionária e distribuída. Essa geração significa um terço da demanda por energia de Bauru. Há ainda a possibilidade de crédito de carbono”, explica o diretor da Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru, Jair Manfrinato.

Ele enfatiza que o local foi escolhido porque facilitaria a licença ambiental. “Tem toda a logística para o lixo, além de ter fácil acesso, uma vez que envolve cidades da região.”

Na Alemanha, usinas como a que está sendo projetada para Bauru existem há 25 anos. Em Paris, segundo Manfrinato, a 4 mil metros da torre Eiffel há uma usina subterrânea de lixo que atualmente é atração turística. “Eu acredito que temos capacidade para fazer algo semelhante. Não tem cheiro porque a pressão é negativa”, explica.

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Resíduos que geram renda

Em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru), os 42 trabalhadores da associação que separa o lixo têm renda média de R$ 660,00 ao mês. Doze deles fazem a coleta dos recicláveis nas ruas da cidade. Outros 30 trabalham na usina, separando o lixo ou triturando galhos de árvores que são vendidos para a indústria.

Segundo o diretor do Meio Ambiente, Benedito Martins, a cidade foi dividida em sete regiões. “De segunda a sábado eles vão em cada uma das regiões. Na sexta-feira eles percorrem duas regiões. Cada região da cidade recebe a coleta uma vez por semana. Recolhe entre 40 toneladas e 50 toneladas/mês de material reciclável na coleta seletiva e mais uma grande quantidade que é recolhida do lixo comum e separada na usina.”

Para ele, falta educação sobre a “cultura do lixo”. “Apesar da coleta ser feita em toda a cidade, muitos moradores ainda não mudaram seus hábitos e colocam material reciclável junto com lixo orgânico. Todos os dias na usina, tem que ser feita a separação. Os sacos de lixo passam em uma esteira e o reaproveitável é retirado.”

Todo o trabalho é feito por uma cooperativa composta inclusive por deficientes físicos. “Em cada região tem um conteiner para que os catadores depositem o material. O caminhão da prefeitura recolhe e leva para a usina. Isso foi feito para que os catadores não carreguem peso por longa distância.”

Tudo o que é vendido é contabilizado no final do mês. “Eles pagam os impostos e dividem de maneira que aqueles que trabalharam o mês inteiro ganhem mais. Os resíduos de podas de árvores são triturados e vendidos para gerar energia na caldeira das indústrias. As compradoras pagam R$ 40,00 a tonelada de galhos triturados”, diz Martins.

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