Geral

Discípulos de Chico Xavier se preparam para celebrar o centenário do médium

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Fugindo à regra comum, eles tomaram como exemplo de vida o comportamento de uma pessoa simples, pobre, sem nenhuma beleza física, que vivia de peruca e óculos escuros. São os “filhos” de Francisco Cândido Xavier, mais conhecido simplesmente como Chico Xavier. Um mineiro de voz pausada que no dia 2 de abril completaria 100 anos se estivesse vivo.

Um homem que influenciou a vida de milhares ou milhões de pessoas. Entre elas, a vida de Maria Aparecida Sanches, Mario Rodrigues da Silva, César Moron, Leopoldo Zanardi, Richard Simonetti, José Humberto Santana e Eleonora Duarte Santana. Além de conquistar a admiração de outros milhões que não são espíritas, como a dona de casa Solange, que pediu para não ter o sobrenome divulgado por receio do que parentes e amigos católicos fervorosos possam dizer.

Em algum momento de suas vidas, esses moradores de Bauru tiveram contato com o maior ícone do espiritismo brasileiro. Mais do que a felicidade em ver e tocar uma figura popular tão carismática, eles sentiram e sentem até hoje grande responsabilidade por conta desse encontro.

Ao constatar pessoalmente a paciência, o respeito e o amor de Chico Xavier para com as pessoas que o procuravam, as palavras sempre reconfortantes, a persistência (ressaltada pela sua fragilidade física), o desprendimento das coisas materiais (especialmente o dinheiro) e o filantropismo, seus seguidores sentem a obrigação de serem, no mínimo, parecidos.

Essa responsabilidade pessoal é ainda mais cobrada por aqueles que conviveram com Chico, como é o caso do ex-vereador José Humberto Santana. Natural de Nova Ponte, município do Triângulo Mineiro, ele conviveu durante vários anos com o médium, quando ambos moraram em Uberaba.

Santana, que nasceu em berço espírita, ajudou o pai a instalar uma bomba hidráulica para puxar água para a casa onde Chico foi morar, na periferia de Uberaba, junto com o médico, na época recém-formado, Waldo Vieira.

Por vários anos, Santana foi o “lampião” de Chico Xavier, ou seja, ele era o encarregado de iluminar o caminho do grupo, liderado pelo médium, nas visitas às famílias carentes. Muitas dessas visitas terminavam à noite e, na época, não havia iluminação pública em grande parte da periferia da cidade.

Todas as segundas, sextas e sábados, Santana participava das reuniões públicas em que Chico orientava espiritualmente as pessoas que lhe procuravam. Ele diz ter sido testemunha de muitas graças recebidas por essas pessoas através de Chico Xavier.

“Ter convivido com Chico é uma baita responsabilidade, que nos obriga moralmente a levar uma vida com ética e dignidade. Senão, de nada valeu essa convivência”, diz Santana, que quando se casou com Eleonora recebeu do amigo uma bandeja de inox com uma inscrição no canto felicitando o casal. A dedicatória é assinada por Chico.

A secretária aposentada Maria Aparecida Sanches afirma que sua vida mudou a partir do momento que trocou algumas palavras com o médium mineiro. Isso foi há mais de 30 anos.

Maria conta que não era espírita, mas desde então se convenceu que possuía uma mediunidade que deveria ser educada. Foi o que ela fez, por recomendação de Chico Xavier. “A paciência dele foi um exemplo para mim. Quando me vejo diante de pessoas carentes, eu me lembro dele, de como ele tinha carinho por elas e procuro fazer o mesmo”, relata. “As palavras de Chico me ajudam a enfrentar a vida com mais coragem, a compreender as pessoas. A simplicidade dele é algo a ser imitado”, afirma.

Para o bancário aposentado César Moron, Chico Xavier tinha todos os motivos para viver com pompa, mas preferiu a vida simples e humilde. “Ele procurou viver a vida de acordo com os ensinamentos de Jesus e tornou-se um exemplo para muitos”, diz.

Apesar de todas as qualidades do médium, o professor de história Leopoldo Zanardi, espírita de nascimento, comenta que Chico Xavier não pode e não deve ser encarado como uma figura divina porque ele é um ser humano.

Ele cita uma frase que deverá estar no livro de seu amigo Jhon Harley Madureira Marques, de Pedro Leopoldo (MG), cidade natal de Chico, que deverá ser lançado em julho deste ano. Parafraseando Carlos Baccelli, Jhon diz que Chico não foi um anjo exercendo o papel de um homem, mas um homem, do mundo e no mundo, exercendo o papel de um anjo.

É possível, inclusive, encontrar seguidores em outras religiões.

A dona de casa Solange, que faz parte de uma família de católicos (pediu para não ter o sobrenome divulgado), nunca esteve com Chico, mas o admira. “Que bom se existissem mais exemplos como esse dentro das igrejas e dos templos”, destaca.

Comentários

Comentários