Internacional

Papa pede perdão por abusos na Irlanda

Folhapress
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Genebra - Perturbação profunda, pavor, traição. As palavras usadas por vítimas de abuso sexual para descrever a sensação quanto ao crime foram evocadas pelo papa Bento XVI, ontem, em uma carta aos fieis na Irlanda, país cuja comunidade católica foi abalada pela exposição nos últimos meses de seis décadas de estupros, abusos psicológicos e violência física em instituições regidas pela Igreja Católica.

No texto de oito páginas, que termina com uma oração pedindo a Deus “perdão e renovação interior’’ pela igreja na Irlanda, o papa chama os episódios envolvendo mais de 15 mil crianças e adolescentes entre os os anos 30 e 90 de “atos pecaminosos e criminosos’’.

“Possam a nossa tristeza e lágrimas, o nosso esforço sincero por corrigir os erros do passado e o nosso firme propósito de correção dar abundantes frutos de graça para o aprofundamento da fé nas nossas famílias, paróquias, escolas e associações e para o progresso espiritual da sociedade irlandesa”, escreveu.

O líder religioso cita as “falhas graves’’ de alguns bispos irlandeses e seus predecessores, que ajudaram a ocultar os crimes. Em fevereiro, ele convocou o episcopado irlandês ao Vaticano para tratar da crise.

Mas, embora evoque o direito canônico e peça “uma ação decidida, levada em frente com total honestidade e transparência”, o papa não menciona punição. Tampouco o faz no trecho em que se dirige aos sacerdotes e religiosos que abusaram das crianças, a quem acusa de trair a confiança de vítimas inocentes e de “causar grande dano” à Igreja Católica.

Isso levou um grupo que representa as vítimas na Irlanda a declarar-se “decepcionado” com o texto. “A carta só chega à beira de tratar das preocupações das vítimas”, disse Maeve Lewis, diretor do Um em Quatro.

Desde que um relatório divulgado em maio de 2009, após nove anos de investigação, expôs a rede de abusos e acobertamento em igrejas, escolas, reformatórios e orfanatos, têm crescido os pedidos pela renúncia do cardeal Sean Brady, chefe da igreja na Irlanda.

Na quarta-feira, dia do padroeiro irlandês, ele se desculpou por ter ajudado a acobertar casos nos anos 70, quando era padre, mas rechaçou a renúncia.

A carta de Bento XVI - seu primeiro texto a lidar exclusivamente com esse tema em seus quase cinco anos de pontificado - é objetiva e contrita. Nela, o papa compartilha da vergonha das vítimas e de suas famílias, diz entender a desilusão de muitos fieis e sacerdotes e afirma ser necessária a revisão e atualização constante das regras para a tutela de jovens.

Bento XVI também enfatiza que o ocorrido não se restringe à Igreja Católica nem à Irlanda. É uma alusão ao fato de o escândalo ter espoucado em diversas partes da Europa, sobretudo em sua Alemanha natal, onde mais de 200 casos emergiram em orfanatos e escolas jesuítas.

No mês passado, o líder da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, veio a público se desculpar. Mas Bento XVI não mencionou especificamente a Alemanha ainda.

Abusos disseminados também estão em investigação na Áustria, na Suíça e na Holanda.

Escândalo semelhante abalou as arquidioceses americanas de Boston e Los Angeles na última década, culminando com a renúncia do cardeal Bernard Law e com o pagamento de quase US$ 3 bilhões (cerca de R$ 5,5 bilhões) em indenizações e acordos.

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Ação contra Igreja Católica na Áustria

Genebra - Cerca de dez vítimas de abuso sexual em instituições católicas na Áustria preparam ação coletiva contra a Igreja Católica e os religiosos responsáveis, o que constitui a primeira iniciativa judicial deste tipo no país, informou ontem a imprensa local.

Para poder apresentar uma ação coletiva, as vítimas se uniram em uma associação que leva o nome Vítimas da Violência Eclesiástica.

Segundo disse ao jornal “Der Standard” o advogado Werner Schostal, o objetivo inicial é chegar a um acordo extrajudicial para pagamento de indenizações. Caso o acordo fracasse, o grupo apela para um processo judicial.

O valor das indenizações gira em torno de 80 mil euros para cada vítima. Em uma entrevista que será publicada hoje no jornal “Profil”, o cardeal de Viena, Christoph Schönborn, não descarta o pagamento de indenizações às vítimas dos abusos.

Schönborn afirmou ainda a continuidade do celibato, alegando que “todos os especialistas dizem que não existe uma relação direta entre os abusos e o celibato”.

Schostal afirma que as vítimas esperam mais sucesso em processo contra os responsáveis diretos pelas instituições, embora haja uma dúvida sobre a prescrição dos casos.

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