Bairros

Diversidade cultural pede passagem na Rodoviária

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Para conferir e entender um pouco do funcionamento do Terminal Rodoviário de Bauru, a reportagem do Jornal da Cidade perambulou pelo local por cerca de cinco horas. Nesse tempo, foi possível entrevistar e conhecer histórias de pessoas que passaram por lá no fim de tarde da penúltima sexta-feira, dia 12.

Em meio a um emaranhado de gente, pessoas que vieram de muito longe para visitar parentes em outras cidade, visitantes oriundos de outros Estados para fazer tratamento no Centrinho e gente que simplesmente desembarcou em Bauru com a intenção de descobrir um mundo novo. Confira algumas histórias a seguir.

Em busca do lugar perfeito

No fim de tarde da penúltima sexta-feira, dia 12, Miguel Dambross, 45 anos, se destacava entre as pessoas que movimentavam o Terminal Rodoviário de Bauru. Fitando o horizonte e segurando duas malas pequenas e um balde lotado de panelas, Miguel andava vagarosamente pelos corredores do terminal observando tudo. “Estou pensando se fico na cidade ou não”, explicava ele calmamente.

Miguel é um aventureiro em busca do lugar ideal para se viver. Sem esposa e filhos, tem apenas um pai, que vive no Rio Grande do Sul, para chamar de família. Sem nada que o segure nos lugares onde passa, ele já morou em diversas cidades, incluindo São José do Rio Preto e São Carlos, onde ficou por 45 dias.

“Tenho espírito aventureiro. Vou viajar até que encontre o lugar perfeito para viver. Sinceramente, nem saí da rodoviária e já não gostei de Bauru. Muito poluída”, concluiu.

Era quase 18h e ele ainda não tinha se decidido a respeito de seu destino. Tímido, não queria falar muito nem contar histórias de como veio parar na cidade. “Preciso pensar, moça. Acho que vou pegar outro ônibus e conhecer o Mato Grosso”, cogitava.

Para matar a saudade

A palavra saudade só existe em português e dona Otacília Fernandes Freire, 84 anos, sabe bem o significado dela. Ela mora em Porto Velho (RO) e enfrenta uma longa viagem, duas vezes por ano, para visitar a filha que mora em Sorocaba.

“De Porto Velho pego um avião para Cuiabá, de lá venho de ônibus para Bauru e daqui vou até Sorocaba em um outro ônibus que faz algumas escalas”, enumera.

Quem vê aquela senhora franzina e carregada de malas, abrindo passagem em meio a dezenas de pessoas para guardar as bagagens no ônibus, não imagina do que ela é capaz.

“Não tenho medo não. A saudade é maior que tudo isso. Se minha filha não pode ir até mim, não tem problema, eu vou até ela”, justifica, cheia de pressa para não perder o ônibus.

Banho revigorante

A penúltima sexta-feira foi a segunda vez em 30 anos que Weslei Afonso de Souza, 39 anos, utilizou o banheiro do Terminal Rodoviário para se banhar antes de viajar. É que ele mora em Ceres (GO) e vem para Bauru pelo menos uma vez por ano para fazer tratamento no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho).

“Tem vezes que fico mais tempo, daí me hospedo em hotel. Mas desta vez cheguei hoje (sexta-feira) de viagem, fiz o tratamento e estou voltando às 20h. Optei por tomar um banho aqui mesmo para dar uma relaxada”, explica Weslei, que também reclamou bastante do pequeno espaço existente no local. “Olha aqui, tivemos que entrar eu e a mala no banheiro. Ela saiu mais molhada que eu.”

De Ceres a Bauru, Weslei teria de encarar 14 horas de viagem, 28 se contabilizado ida e volta. Além disso, ele gastou R$ 350,00 só de passagem, sem contar a alimentação e o banho.

Com a propriedade de quem conhece a frequenta o Terminal Rodoviário de Bauru há muito tempo, Weslei tem muitas reclamações a fazer. “Pouca coisa mudou por aqui, apenas a aparência melhorou um pouco. Ainda falta segurança, caixas eletrônicos, mais opções para alimentação, um banheiro melhor, etc. Mas, enfim, todo esforço é válido quando se recebe tratamento gratuito no Centrinho”, conclui.

Viagem em família

Duas vezes por ano a família Costa afivela as malas e parte de Suzano, Interior do Estado, para Bauru. A rotina faz parte da família desde o nascimento de Yasmin, 6 anos, quando foi diagnosticado que ela tinha fissura labiopalatal.

“Desde quando ficamos sabendo que teríamos de vir periodicamente para Bauru para trazer Yasmin ao Centrinho, combinamos que sempre viríamos juntos. Meu marido e eu achamos fundamental esta participação na vida dela, além de que quando passamos mais dias aqui aproveitamos para passear”, explica a mãe, Amanda Aparecida de Oliveira Costa, 28 anos.

Já fazia duas horas que a família ocupava os bancos do terminal à espera do ônibus que os levaria de volta à cidade de origem. A pequena Yasmin já estava impaciente e cansada de brincar com os brinquedos que trouxe de casa.

“Não aguento mais ficar aqui, quero ir embora, mãe”, reclamava. “Não tem jeito, viemos cedo porque não estamos de carro e não podemos correr o risco de perder o ônibus”, explicava Amanda.

De acordo com ela, a filha, que já se acostumou a situação mantém a empolgação apenas nas primeiras horas que fica no local, depois é tomada pelo cansaço como qualquer outra criança.

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Um pouco de cultura em cada mala

É carregando malas no Terminal Rodoviário de Bauru que Antônio Previtali Filho, 58 anos, ganha a vida e um pouco mais de conhecimento a cada dia. Ele é autônomo e há cerca de 10 anos facilita a vida dos passageiros que frequentam o local ‘livrando-os’ temporariamente de malas pesadas, indispensáveis companheiras de viagem.

“Percebi que não tinha ninguém que fazia este serviço. Na época, meu filho era empregado de uma empresa de ônibus e me colocou em contato com os responsáveis, que me autorizaram a trabalhar aqui por conta própria. Dez anos depois já sou bastante conhecido e tenho muitos clientes fixos”, lembra.

Neste meio tempo, Antônio perdeu as contas de quantas malas já carregou, mas não se esquece das experiências que viveu com seu carrinho nos corredores do Terminal. “Conheci muitas pessoas, de diferentes bairros, cidades e países. Cheguei até a encontrar antigos conhecidos de minha terra natal, o Paraná. Gosto muito porque, além de rever pessoas que dificilmente eu teria a chance de encontrar novamente, aprendo um pouco com cada um que passa por aqui”, justifica ele, cumprimentando uma mulher, vizinha de sua casa, na Vila Santa Luzia.

Além das recompensas imensuráveis, Antônio ganha cerca de um salário mínimo e meio por mês. Para isso, ele trabalha das 6h às 14h; retorna à noite, às 20h, e só deixa o local às 23h.

Entre tanta diversidade e com uma rotina atribulada, Antônio tem a certeza de que todo cuidado é pouco com as malas de seus clientes, já que cada delas sempre está carregada de sonhos, saudade e expectativas.

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