Ser

Minha história


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A nossa vida com mamãe...

Certa vez fui escovar os dentes e percebi que não tinha pasta de dente, informei mamãe que havia acabado a pasta, ela me respondeu com um tapa no meu rosto e disse: “Nunca mais, mocinha, reclame. Não escuta o que o nosso guia do templo diz? Não devemos reclamar”. (Hei, não era uma reclamação, eu não estava reclamando. Só queria saber se tinha ou não pasta de dente)

(Com tristeza) Aquele tapa na cara que mamãe me deu me fez perder o chão.

(Ironizando) Mas ela é minha mãe, me deu o direito de viver, saí do ventre dela e daí que ela é normótica? Quem aqui não é? Tudo o que o homem do templo dizia ela dizia amém. Quantos de nós dizemos ‘amém’ todos os dias?

Normose, patologia da normalidade. Quem foi mesmo que me ensinou sobre isto? Ah!!! O Elio Andriot, pessoa especial, muito querido por todos... mas isto não vem ao caso, o fato é que em algum ângulo de nossas vidas fazemos coisas anormais e consideramos como certas.

(Se esquivando) Ela é minha mãe, trabalhou muito como doméstica, mas seus patrões diziam que ela era da (família). (Risos) Da família uma ova, mamãe precisava de um medicamento caríssimo, pediu dinheiro emprestado a eles, que responderam: “É, não é fácil, né, Maria, mas Deus há de ajudar... (Risos sarcásticos).

É, mamãe poderia ter ficado sem esta. Às vezes me pergunto o que doeu mais: o tapa que mamãe me deu ou o que ela levou? A palavra tem mais poder do que a força exercida pelo corpo, pelo menos neste caso, com certeza doeu mais em mamãe do que em mim.

Mamãe não aprendeu, mas eu sim. Pessoas só ajudam esperando algo em troca, e com este trocadilho todo trabalhou doente e conseguiu uma esmola, quer dizer, uma doação do medicamento que precisava.

Sheila Pereira Bazalha

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