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Sexualidade e afetividade

Anísia Cunto Motta
| Tempo de leitura: 2 min

Nos dias atuais vivenciamos profundas transformações de diferentes naturezas e, em meio a elas, acostumamo-nos a avaliar a turbulência se-xual como indício de liberdade. Na verdade, con-tinuamos sob forte repressão, porque a sexualidade em sua dimensão propriamente humana não foi ainda conquistada,uma vez que não é vivida como projeto, dirigida pela razão e liberdade. Por isso explode e implode na genitalidade!

O pensamento de Paul-Eugène Charbonneau continua válido: "...A sociedade atual, sob aparência de uma pseudo-hipersexualidade, revela-se numa desatrosa hipossexualidade. Aqui o excesso torna-se escassez e a potência humana se esvazia numa impotência provocada pela fixação maníaca, pela obsessão constante, pela exasperação da nefasta vontade de gozar. Vislumbrar a sexualidade como conquista é perceber a urgência no vir-a-ser humano de uma transformação da biossexualidade para a verdadeira noosexualidade que, no entanto, não suprimirá a herança animal. A adolescência é a hora da ultrapassagem, a hora em que o cérebro, produzindo o pensamento, restabelece a dimensão da sexualidade" (Charbonneau). Perguntaríamos: a humanidade estaria então ensaiando a sua fase adolescente? Para alguns pensadores, o cenário da transformação da sexualidade só aconteceria numa mudança global da sociedade. Mas esse processo só acontecerá simultaneamente à personalização: ser humano se faz na permanente tensão do social e do individual; a começar primeiro no universo onde ele é acolhido - a família, nicho primordial da sexualidade que emerge de como são vividas as relações entre um homem e uma mulher: enquanto pessoas, esposo/esposa, pai/mãe, cidadãos, profissionais, irmãos porque filhos de Deus... A tarefa fundamental e a mais complexa da vida de cada um é construir-se ser humano - precisa aprender tudo, não tem equipamentos de instintos e especializações animais e vai aprender enquanto homem e mulher.

Esta construção humana exige um pré-requisito essencial - a afetividade na acolhida: crianças desejadas, esperadas, amadas, assumidas, cercadas de cuidados. Ser humano nasce o mais dependente dos animais, mas é dotado de potencial de desenvolvimento maravilhoso, graças ao seu maior engenho - o cérebro. Existe nos centros nervosos uma região sexual que se encontra no cérebro médio, muito perto de outros centros relacionados com a afetividade. A educação integral da pessoa humana é que a prepara para viver sua sexualidade com afetividade, sem medo da relação que envolve o risco de perder. Desvincular a sexualidade do afeto, reduzindo-a ao sexo, é estratégia para não se envolver (dualismo: corpo/espírito), daí que os indivíduos passam-se por objetos de desejo e não de amor. Nesta esfera, vive-se na busca do prazer sensível, corpóreo, efêmero - verdadeira vertigem de culto ao corpo. Inverte-se a ditadura da repressão sexual - agora o modelo determina que se busque muito prazer, sobretudo genital. Sexo só, sem vínculo, já não basta , busca-se incrementá-lo, chegando-se até às perversidades.


A autora, Anísia Cunto Motta, é educadora, ativa na coordenação da Escola de Pais do Brasil da Seccional de Bauru

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