Kenneth Rogoff é um professor norte-americano da Universidade de Harvard, PHD em Economia pelo MIT, escritor brilhante com obras publicadas que são clássicos da literatura econômica. Ele estudou em profundidade os problemas gerados pelas crises econômicas na História dos países e é reconhecidamente uma das maiores autoridades mundiais na matéria. O mais recente de seus livros (“Oito Séculos de Delírios Financeiros/Desta Vez é Diferente”, escrito em cooperação com a economista Carmen Reinhart) está sendo lançado pela Editora Campus/Elsevier e certamente será mais um clássico.
Ele esteve no Brasil recentemente e, numa entrevista ao jornalista e escritor Fernando Dantas, (OESP 21.04.10, pg B 4), fez observações interessantes sobre a economia brasileira, mostrando um bom conhecimento da nossa realidade. Disse uma coisa curiosa sobre o nosso passado de dívidas e deixou uma frase misteriosa, que comento mais adiante. Ele revelou algumas crenças que são agradáveis de ouvir e bastante confiança na capacidade brasileira de manter o rumo do crescimento, com estabilidade social, por exemplo: “o Brasil está com muita bala na agulha nesse momento e sua economia é uma das mais dinâmicas e um dos lugares mais atraentes para investir; vocês passaram por uma prova de fogo com a crise e se saíram melhor do que esperado”. As opiniões de Rogoff são ouvidas com respeito não apenas nos meios acadêmicos e ele fez a sua aposta quanto a nós nesses termos, conforme registrou Dantas: “Acho que o Brasil vai crescer 6% a 7% este ano e pode manter esse ritmo por uma década”. E fez uma ressalva com a qual concordo quase totalmente “... se a carga tributária e as transferências sociais forem mantidas sob controle e se houver retomada das reformas econômicas...”
Dura foi a constatação do Professor comparando o passado de dívidas do Brasil com o da Grécia lembrando que enquanto a Grécia quebra de dois em dois anos desde a sua independência (1829), o Brasil quebrou de quatro em quatro anos, também desde a independência. Não há como discordar. O que me pareceu um tanto misterioso foi o comentário que fez sobre riscos políticos, quando se referia ao dinamismo da sociedade brasileira, mas ressalvando: “o maior risco para o Brasil, como de costume, é o político. É o risco de que, em vez de melhorar a governança, o sistema político foque em transferências e outras medidas de curto prazo para impulsionar a popularidade do governo. Aí o crescimento poderia murchar um pouco...” Bem, na realidade isso não é muito diferente em qualquer parte, mas em nosso caso que riscos são estes? O Brasil ganha qualquer comparação com todos os demais “emergentes” em matéria de segurança das instituições: temos uma Constituição funcionando num Estado de Direito, sem perturbações de natureza étnica ou religiosa, sem atritos de fronteiras, uma população que aceita o processo democrático e que investe intensivamente em sua própria educação e está diminuindo rapidamente a antiga e terrível discriminação de rendas pessoal e regional.
Em resumo, nossa população vive sob um regime de liberdade individual, com seus direitos garantidos em última instância por um Supremo Tribunal que é respeitado pelo Executivo e pelo Legislativo e pelo conjunto da sociedade. Estamos bem em todos esses quesitos que nos garantem condições políticas razoáveis para realizar o desenvolvimento com justiça social.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Desenvolvimento - e-mail: contatodelfimnetto@uol.com.br