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Vítima relata o horror de acidente

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Uma fração de segundos que reflete nos anos seguintes de uma vida. Esta é a síntese do que foi vivenciado pelo advogado Eduardo Jannone da Silva, de 32 anos, que há anos convive com a superação de limites físicos para continuar o trabalho e o convívio com amigos e familiares.

Sua vida mudou bruscamente de rumo em fevereiro de 2003, num domingo à tarde quando, sentado no banco de passageiros de um automóvel, literalmente, viu o mundo ao redor girar 360º. Em razão do mau estado de conservação de uma estrada no Mato Grosso do Sul, o advogado, morador dos Altos da Cidade, em Bauru, até hoje depende de uma cadeira de rodas para se locomover.

“Eu ia na companhia de um colega de Marília, onde participamos de uma formatura na véspera, para Campo Grande, prestar concurso para o Ministério Público. Dirigi até a cidade de Águas Claras, já no Mato Grosso, quando troquei de lugar”, recorda.

Eduardo e o amigo seguiam pela BR-262, prolongamento da rodovia Marechal Rondon (SP-300), após a divisa entre os Estados. O mal estado da estrada federal, lembra o advogado, fez com que o carro capotasse, apesar de, segundo ele, ambos dirigirem com cautela. “Não sei como está agora, mas normalmente naquela época a estrada vivia mal conservada. Era tanto buraco que você não sabia onde iria cair”, ilustra.

Um buraco avariou o eixo do carro, que, desgovernado, relembra Eduardo, ziguezagueou pelos degraus entre asfalto e matagal, até a capotagem. “Quebrou a ponta do semi-eixo da roda dianteira. A pessoa que dirigia teve apenas arranhões. Eu também tive escoriação na mão, mas também lesão medular”, lamenta Eduardo, que, apesar do quadro de tetraplegia, considera-se com sorte por usar o cinto de segurança.

“Amassou o teto do carro. Devo ter feito o movimento chamado de ‘efeito chicote’, com compressão na altura da minha cabeça, o que fraturou minha quarta e quinta vértebra cervical”, detalha. “O fragmento desse osso foi parar dentro do canal medular. Minha lesão foi por compressão”, especifica Eduardo que, sete anos depois, apresenta evoluído quadro de recuperação, com movimentação parcial em braços e pernas. “No começo só fazia isso”, compara, ao mover o dedo mínimo da mão esquerda.

Agonia

O capotamento ocorreu no município de Ribas do Rio Pardo, a cerca de 100 quilômetros de Campo Grande. O hospital da cidade, recorda o advogado de Bauru, sem recursos, pouco ajudou no socorro, a não ser para removê-lo à Capital sul-mato-grossense.

“Fiquei consciente o tempo todo. Me perguntavam se eu conseguia ou não sair. O carro parou de ponta cabeça e eu respondia que não achava estar preso em nada, só que eu também não conseguia sentir nada. Não sentia dor, nada abaixo do pescoço. O pessoal começava a parar na pista”, narra.

“Veio uma ambulância. Eles me olharam e decidiram não remover, à espera do médico da cidade. Só que ele não veio. Estava sozinho no hospital e não poderia sair, porque era o único de plantão. A ambulância voltou e me removeram com a ajuda de populares e sem colar cervical, que estava emprestado a uma senhora da cidade, com dor na coluna”, lembra.

Durante remoção à capital do Mato Grosso do Sul, Eduardo, durante quase 100 quilômetros de asfalto, e buracos principalmente, teve o pescoço amparado por um enfermeiro, a fim de evitar sequelas maiores.

“Lá, enfim, recebi todo o suporte com colar cervical e administração de corticóides. Passei por cirurgia com recomposição da vértebra e estabilização da coluna com haste de titânio. Doze dias depois consegui uma vaga no hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, onde passei mais dois meses. Foi o começo de minha reabilitação”, atribui Eduardo, que, atualmente milita na área cível, após defender tese de mestrado sobre os direitos dos portadores de deficiência física.

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Choque

O advogado Eduardo Jannone da Silva, de 32 anos, conta ter ficado cerca de 40 minutos dentro do carro após o capotamento que o deixou tetraplégico, em uma estrada no Mato Grosso do Sul.

“É tudo muito rápido, desde o acidente. Para mim não deu sentimento de demora, por estar agitado. Ajudou a não ter dor nenhuma. As coisas que me lembro realmente é de sentir o carro capotar. Me senti muito preso ao cinto, lembro de ver as coisas rodando do lado de fora, mas de estar realmente atado ao banco”, descreve. “Deve ter entrado terra na minha boca, ainda no carro, porque mastiguei areia por alguns dias. Lembro de ver o carro rodar, coisas soltas voando dentro e depois parar tudo”, detalha.

Na véspera do acidente, Eduardo jogava biribol (vôlei de piscina) com amigos. “Cair a ficha depois de que há algo errado, ao ouvir termos médicos que não conhece ou jamais se interessou, é difícil. Não mexia nada, só o olho. É um misto de apreensão, medo, impotência. O impacto é complicado”, admite.

“Se você não tem um conjunto de respaldos, a coisa se complica cada vez mais”, considera Eduardo, animado com o estágio de recuperação. Ele tem sido auxiliado, entre diversas formas de reabilitação, também pelo trabalho de equoterapia (com auxílio de cavalos) empreendido em Bauru pela Associação de Pais e Amigos do Excepcional (Apae) com apoio da Sociedade Hípica de Bauru.

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