Ninguém jamais saberá o que houve realmente no quarto do apartamento do 6º andar do Edifício London, na noite do dia 29 de março de 2008. Sem testemunhas oculares os jurados votaram pelas evidências da perícia oficial, confiantes na retórica do acusador e influenciados pelo clamor popular. Como saber que a justiça se fez? Os 31 anos e um mês de cadeia para Alexandre Nardoni e os 26 anos e oito meses de prisão para a “madrasta” Ana Carolina Jatobá foram sentenças presumivelmente justas. No teatro da vida real a verossimilhança é que vale. Pena que no mundo político a justiça se curve tanto às brechas da lei. Muitas vezes sequer imagens gravadas em vídeo bastam como provas. Paulo Maluf, procurado nos Estados Unidos pelo FBI, está homiziado no Brasil, onde teria produzido seus crimes. Seria um contrassenso em qualquer país do mundo. Aqui, evidência não se aplica em processo contra acusado de assalto aos cofres públicos. “A Pátria-Mãe subtraída em tenebrosas transações”.
A filha de cinco anos defenestrada pelo pai, deixa-nos a amarga certeza de que não se ama o filho o tempo todo. Existem momentos de falta de paciência, de raiva e de desespero. Crianças choram quando ficam cansadas em passeios prolongados a supermercados e shoppings. Para elas só servem à negação de seus desejos. Na infância todos nós fizemos birra para chamar a atenção dos pais, com ciúmes dos irmãos mais novos. Irônico, o poeta Vinicius de Morais dizia que “filho é bom, mas dura muito”. Aos cinco anos de idade não sabemos o que é a morte e muito menos o que pode ser a possibilidade dos pais assassinarem os próprios filhos. Aos 20 anos começamos a achar que tudo é possível quando não somos os filhos que eles sonharam. Os gregos aceitavam o filicídio como algo que pudesse acontecer. O pátrio-poder incluía direitos sobre a vida do descendente. O contrário é que consideravam a maior maldição dos deuses. O filho matar o próprio pai. Esta desgraça se abateu sobre Édipo. Por vingança do Olimpo ele foi condenado a cometer o parricídio e dormir com a mãe. Na tragédia de Sófocles, encenada há mais de 2.400 anos, Édipo tenta fugir do seu destino. Quanto mais foge mais se aproxima da desgraça. O fato de o pai ter mandado matar Édipo não passou de um pormenor.
Na cultura brasileira, preso inocente só no Jardim Zoológico. O povo se identifica com as tragédias. Multidões em frente do Fórum, advogado de defesa vaiado e chutado. Câmeras, luzes. As pessoas querem fugir do seu dia-a-dia e das próprias vicissitudes. A auxiliar de cozinha viajou de longe, gastou com hotel e enfrentou a chuva para se sentir co-participe de um acontecimento nacional. Pipoqueiros e vendedores de cachorro quente e churrasquinho colaboram para criar o ambiente de circo em frente ao Palácio de Justiça. Faltou montar a roda gigante do filme “A Montanha dos 7 Abutres”. Criam-se piadas novas ou velhas anedotas são adaptadas à tragédia. O mal é glamourizado até nos vampiros que se tornam criaturas simpáticas, com problemas humanos e paixões eternas. Talvez por isso a ré tenha recebido tantas propostas de namoro e casamento. Quando deixarem a prisão ambos os condenados terão um futuro promissor como pregadores da Bíblia. Os arrependidos e os martirizados carregam consigo um sucesso midiático implícito. Somos humanos para o bem e para o mal. Se os protagonistas fossem favelados talvez nem estivéssemos escrevendo sobre o tema. Isabella Nardoni e aquele menino, o João Hélio arrastado no Rio por ruas e vielas preso ao cinto de segurança do carro roubado a sua mãe, assistem indiferentes a todos esses acontecimentos. Hoje, livres do mundo mau, envergonhados por verem seus túmulos transformados em objetos de romaria devem estar mais interessados em ouvir estrelas do que confissões e choros.
A grande lição quem nos dá é o Calvin, aquele personagem de histórias em quadrinhos: “A melhor prova de que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca entraram em contato conosco”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC