Bairros

Animais domésticos estão fora da lista de

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Com uma população de animais domésticos estimada em 60 mil cachorros e 20 mil gatos, Bauru não tem política pública capaz de conter o abandono e a procriação desenfreada desses bichos, questões que contribuem para o aumento de zoonoses, como a temida leishmaniose, que registrou 37 casos em humanos no ano passado, e de maus-tratos.

As Organizações Não Governamentais (ONGs) voltadas à proteção dos animais culpam o poder público municipal pela situação, que, na opinião das entidades entrevistadas pela reportagem, causa sofrimento aos bichos e coloca em risco a saúde dos humanos.

Já a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e seu Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), que respondem pela questão, se defendem. Por meio de seus titulares, atribuem a culpa à população, que, por inconsciência ou desleixo, descarta animais da mesma forma que troca de roupa.

A discussão é antiga e complexa, pois perpassa questões de saúde, verbas públicas, direitos e deveres e emoções resultantes da relação bicho-homem. Sem consenso, as partes envolvidas hoje se digladiam em torno da implantação de uma política municipal de castração de cães e gatos.

No entendimento das ONGs, a cirurgia é a melhor maneira de conter o crescimento da população animal e reduzir a incidência de muitas zoonoses. Na visão da SMS, a castração é de responsabilidade do dono de cada bicho em questão e o combate à leishmaniose passa obrigatoriamente pela eutanásia dos cães contaminados, bem como da conscientização da população.

“Penso que a tática utilizada pelo município para combater a leishmaniose está equivocada. É sabido que a raiz dos problemas é a procriação desenfreada, portanto, ao invés de gastar dinheiro com a eutanásia massiva de cães e gatos, o CCZ deveria direcionar suas energias para a castração. Além disso, deveria realizar uma campanha de conscientização da população em relação aos cuidados que um animal deve ter”, sugere a bióloga Fátima Schroeder, integrante da ONG Naturae Vitae, atuante na cidade há 7 anos.

A opinião de Fátima é compartilhada por outras ONGs. “As leis de proteção ao animal já existem. O município deveria atuar com rigor no cumprimento destas regras”, defende Beatriz Schuler, integrante da ONG Vida Digna, fundada há 8 anos.

Atualmente, a legislação federal prevê, além de multa, pena de três meses a um ano para quem maltrata animais, embora uma pequena porcentagem destas ocorrências chegue às consequências finais.

Em contraposição, o secretário municipal da Saúde, Fernando Monti, alega que a solução não é tão simples quanto parece. De acordo com ele, toda verba direcionada às atividades do CCZ é retirada da Secretaria Municipal de Saúde e, portanto, investir além do que é feito atualmente seria o mesmo que sacrificar a saúde humana em prol do bem-estar dos animais.

“A Secretaria da Saúde oferece suporte e tratamento aos animais visando exclusivamente a saúde humana, este é o nosso foco. Dizer que vamos castrar os animais da cidade seria o mesmo que tirar dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS). A responsabilidade da castração é pertinente a cada munícipe que opta por ter um bicho em casa. Além de que sempre agimos racionalmente e não emocionalmente”, enfatiza Monti.

Tal alegação é rebatida pelas entidades defensoras de animais. Na visão delas, a saúde dos bichos está diretamente ligada à saúde humana, afinal, muitas zoonoses podem interferir na qualidade de vida da população. Exemplo disso é a leishmaniose, que em casos mais graves pode resultar em internações hospitalares e até mesmo em óbito.

Em meio a este debate acalorado, os animais, maiores afetados pela infindável discussão, seguem abandonados, dependendo da boa vontade de uma ou de outra pessoa para sobreviver.

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Programa de castração exige logística, diz prefeito

Fazendo o meio de campo entre a Secretaria Municipal de Saúde e as Organizações Não Governamentais (ONGs) voltadas à proteção dos animais, o prefeito de Bauru, Rodrigo Agostinho, não descarta a possibilidade de implementar na cidade um programa de castração massiva de cães e gatos.

Agostinho, no entanto, não faz promessas quanto à data de implantação do programa, diferentemente da urgência reivindicada pelas ONGs, que veem na castração a principal sinalização para que o atendimento aos animais entre na lista de prioridades do município.

“Tenho ciência da necessidade da castração, tanto é que atualmente o Centro de Controle de Zoonoses realiza o procedimento nos animais que dão entrada no local por abandono e também estabelecemos parceria com a Universidade Estadual Paulista, por meio do curso de medicina veterinária”, informa.

Mas a questão, frisa Agostinho, é que implantar um programa de castração massiva na cidade requer muito estudo, que envolve também a classe dos médicos veterinários. “É uma questão de saúde, mas também um problema de logística e estou tentando descobrir a melhor forma de aplicar isto à realidade do município, afinal, existem clínicas veterinárias que oferecem o serviço e não posso tirá-lo simplesmente desses profissionais. Precisamos estudar uma parceria”, afirma. (WF)

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Consenso

Em um momento de raro consenso, representantes das ONGs e da Secretaria Municipal de Saúde concordam em atribuir à população uma parcela da responsabilidade pela atual situação de crescente abandono dos animais.

“É dever da sociedade compreender que esse descaso coloca em risco a saúde humana”, afirma Fernando Monti, secretário municipal de Saúde.

Em concordância, Beatriz Schuler, integrante da ONG Vida Digna, acrescenta: “Se cada animal doméstico que habita os centros urbanos tivesse o seu responsável humano, no teor completo das palavras ‘responsável e humano’, 90% dos problemas relacionados aos animais não existiriam”, afirma.

Wanessa Ferrari

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