Articulistas

O álcool e o volante

Dirceu Cardoso Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

É alarmante a informação de que 25% dos motoristas que dirigem nas estradas brasileiras bebem “pesado”; ou seja, consomem cinco ou mais doses de bebida entre duas e oito vezes por mês. Também dói verificar que 73% dos condutores de carros, 79% dos motoqueiros, 71% dos caminhoneiros e 61% dos motoristas de ônibus confessam beber exageradamente. Esses dados, apurados na pesquisa da Secretaria Nacional de Política sobre Droga, recém-concluída, justificam a verdadeira guerra em que se transformou o trânsito brasileiro. Isso sem falar dos motoristas usuários de comprimidos que os mantém acordados - os chamados “rebites” - e daqueles que bebem durante o trajeto.

A “lei seca”, em vigor desde junho de 2008, apesar de ter levado para a cadeia centenas de motoristas alcoolizados e provocado o incômodo de milhares de outros não flagrados, não tem sido suficiente e nem didática para evitar a criminosa mistura de álcool com volante. Primeiro porque o número de “bafômetros” disponíveis é diminuto (menos de 10% dos motoristas consultados em recente pesquisa foram testados) e, além disso, porque há a possibilidade de fiança. Uma vez fora da cadeia, o infrator dispõe de um vasto arsenal de recursos para sua defesa.

A questão do trânsito é muito mais do que policial. Não basta apenas fazer barreiras para cercar motoristas bêbados. É necessário uma ação efetiva do governos e da sociedade, capaz de impedir que o embriagado assuma a condição de condutor de veículo, mesmo o de sua propriedade. Há que se criar uma estrutura suficientemente convincente que o faça usar o táxi ou o ônibus depois de beber, deixando o seu veículo guardado e em segurança até o momento em que a bebedeira tiver passado.

As punições devem ser efetivas e os recursos suspensivos os menores possíveis. Só a certeza de que permanecerá na cadeia e terá sua vida profissional e social prejudicada será capaz de impedir que os viciados em álcool ou outras substâncias que causam dependência insistam em continuar ao volante, causando acidentes e mortes.

Quanto aos motoristas profissionais – condutores de ônibus, caminhões, vans e assemelhados -, além das medidas sócio-educativas diretas, ainda há que se atacar o problema pelo lado trabalhista. As empresas responsáveis pelos veículos ou pela carga neles transportada devem responder solidariamente pelos condutores alcoolizados ou “rebitados”. Isso acabará com a grande desculpa de que utilizam as substâncias para agüentar a jornada de trabalho prolongada.

Ao governo não basta apenas “faturar” o noticiário positivo da mídia com as incipientes ações da “Lei Seca”. Tem de enfrentar a guerra do trânsito em suas diferentes facetas. E isso é possível, graças à feliz adesão da sociedade aos movimentos de pressão por cidadania. Sem esse comprometimento geral, continuaremos líderes do vergonhoso campeonato do número de mortes em acidentes em ruas e estradas. Mãos à obra...

O autor, tenente Dirceu Cardoso Gonçalves, é dirigente da Aspomil - Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

Comentários

Comentários