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Motivação e greve dos professores

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Por que os professores da rede estadual estão em greve? A resposta pode ser: ganham pouco e querem aumento, querem melhorar as condições de trabalho, querem receber mais atenção e respeito etc. Todas elas são fatos reais, mas, por si sós, são incapazes de levar à greve. Na verdade elas originam uma determinante maior: a falta de motivação. Há muito tempo os professores se sentem desmotivados. Muitos estão no magistério por falta de outra opção, e sairiam se tivessem oportunidade. Outros estão no magistério, e não são poucos, por escolha pessoal, por se sentirem atraídos para ele. Os primeiros já ingressaram desmotivados e os outros entraram motivados e perderam ou vêm perdendo a motivação.

Mesmo que a Psicologia do Trabalho não tivesse dado a sua enorme contribuição, encontrada fartamente nos livros de liderança, não seria difícil entender que as pessoas somente se dedicam ao que devem fazer se isso lhes trouxer alguma recompensa. A recompensa é o motivo pelo qual a pessoa se dispõe a empregar a sua energia numa atividade. O salário é uma recompensa muito forte, porque propicia a satisfação de muitas necessidades como: alimentação, vestuário, moradia, condução, estudo, cuidado com a saúde, lazer. Mas há outras formas de recompensa como o prazer de realizar alguma coisa importante ou bela, de servir aos que necessitam, como é o próprio caso da educação. Receber respeito, amizade, consideração também compensam o esforço e dedicação. A falta ou a recompensa insatisfatória desmotiva as pessoas e elas reagem. A greve é, portanto, uma reação aos fatores desmotivantes e uma ação em busca de motivação. Os professores querem trabalhar, mas querem trabalhar satisfeitos, vendo-se justamente reconhecidos.

Carlos Alberto Sicupira, um dos três controladores da maior cervejaria do mundo, a ABInBev (Skol, Brahma, Anheuser-Busch) e das Lojas Americanas, acha que a organização (empresa ou governo) não motiva, apenas cria as condições para que as pessoas se motivem. Em entrevista à revista Exame (nº 964) ele afirma: “Não acho que se deva motivar ninguém. A pessoa tem de ser automotivada... As pessoas se sentem motivadas a trabalhar se existe um ambiente em que possam se dar bem pessoal e financeiramente. A vida é um pacote. Não adianta acreditar que basta alguém se realizar no trabalho fazendo coisas importantes, mas sem ganhar nada. Também não adianta dar dinheiro e a pessoa não fazer algo que lhe interesse. É preciso ter certeza de que ela vai se realizar ao fazer coisas grandes e reconhecê-la por isso.” E mais: “Você tem de fazer o que você fala. Todo mundo está olhando o tempo todo para o líder da organização. Não dá para falar uma coisa e fazer outra. Senão todo mundo vê logo que se trata de um discurso de mentira.”

Muito bem, e o que faz o governo do Estado? Usa a liderança que o maior teórico da Administração, Peter Drucker, chamou de ‘liderança da cenoura e do chicote’, ou liderança do agrado e do medo. Em vez de dialogar com os professores e oferecer um plano de longo prazo de recuperação do prestígio do professor, pois professor já foi uma das profissões mais prestigiadas, ele, o governo, blefa ameaçando contratar substitutos, que qualquer um sabe que é impraticável, e oferece bônus para os que forem comportados. Usa o chicote e oferece a cenoura, como se o professor fosse um animal a ser amestrado. Também não é coerente quando diz que não há recurso e gasta milhões em propaganda do governo. Qual o benefício que a população tem com os milhões despejados nas agências de propaganda para mostrar o rodoanel? E para mostrar hospitais maravilhosos, enquanto todos veem, diariamente, através da TV, filas de doentes se arrastando por corredores e saguões de hospitais em péssimas condições? A experiência grevista mostra que se a cláusula referente ao reajuste salarial for atendida, a greve cessará e as demais reivindicações serão esquecidas. E no próximo ano haverá outra greve com as mesmas reivindicações. Imaginou como seria a sua empresa, senhor Beto Sicupira, usando a motivação do governo?

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru, membro da ABLetras e colaborador de Opinião

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