O caseiro Roberto Carlos Lopes e o pintor Evanildo Fontes Martins são considerados culpados pela morte do ex-secretário municipal de Esportes, José Roberto Franco, o Sapé, assassinado com dois tiros, em maio de 2008. Eles foram condenados na madrugada desta quinta-feira, após um julgamento com mais de 19 horas de duração.
A sentença foi proferida pelo juiz Benedito Okuno, da 1° Vara Criminal, e atribui 21 anos e seis meses para Evanildo e 19 anos para Roberto, em regime fechado.
As penas foram atribuídas em função dos agravantes impostos ao delito, considerado de motivação torpe e sem possibilidade de defesa à vítima, alvejada no tórax e cabeça, enquanto fazia ordenha de uma vaca em fazenda do Vale do Igapó, em Bauru.
Detalhes do dia do julgamento abaixo e amanhã na edição do Jornal da Cidade.
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Júri do caso Sapé entra na madrugada
Às 2h de hoje, após réplica do promotor, responsável pela acusação, a defesa iniciou a tréplica, que terminou às 4h. A votação durou uma hora
Como já era previsto, o júri popular do caseiro Roberto Carlos Lopes e do pintor Evanildo Fontes Martins, acusados de matar o ex-secretário municipal de Esportes, José Roberto Franco, o Sapé, em maio de 2008, que começou às 10h de ontem no Fórum de Bauru, se estendeu.
Às 2h, após a réplica do promotor João Henrique Ferreira, a defesa dos réus iniciou a tréplica. Então, finalmente, os sete jurados se reuniram, a portas fechadas, para decidir o destino dos réus.
A testemunha Douglas Rodrigues Alvares, atualmente com 18 anos, foi a peça-chave do julgamento. Na época do homicídio, Douglas tinha 16 anos e chegou a admitir na Delegacia de Investigações Gerais (DIG) ser o autor do assassinato. Depois recuou, durante os questionamentos feitos na delegacia. Foi absolvido quando a acusação tramitou pela Vara da Infância e Juventude.
Como ninguém pode ser julgado duas vezes pelo mesmo delito, se ontem ele novamente admitisse ser o responsável pela morte de Sapé, não apenas livraria da acusação Lopes e Martins, como também permaneceria longe de qualquer ônus criminal envolvendo o caso. Por essa razão, seu testemunho era aguardado com expectativa pela acusação e defesa dos réus. Não por acaso, as partes se estranharam durante a fala de Douglas, a ponto do juiz Benedito Okuno, da 1.ª Vara Criminal, intervir tocando a campainha.
Douglas foi a quarta testemunha de acusação e negou qualquer participação no crime. Alegou ter ouvido os disparos que atingiram Sapé no peito e na nuca, mas disse não ter presenciado o homicídio, praticado sob uma mangueira. Sustentou, inclusive, que após os tiros, saiu correndo para casa. Também negou ter ajudado a arrastar Sapé para dentro do carro e conduzido o veículo até o local onde foi encontrado.
Douglas afirmou que trabalhou para Sapé e foi demitido por ele. Disse que sabia que a vítima seria emboscada porque ouviu o planejamento do crime elaborado por Martins e Lopes, que teria sido o autor dos disparos. Ao responder uma pergunta do promotor João Henrique Ferreira, afirmou ter seguido para perto da mangueira para demover Lopes da intenção de matar a vítima. Contou ainda que, no final do dia em que Sapé foi morto, Lopes foi buscá-lo em sua casa e o levou para um endereço no Parque Jaraguá.
Ele teria convencido a assumir o crime. Douglas, inclusive, alegou ter sido ameaçado e obrigado a disparar a arma utilizada no homicídio para que suas digitais estivem nela. Foi justamente Douglas quem entregou a espingarda à polícia. Contou que recebeu calmante de Martins para que se mostrasse calmo ao admitir o assassinato na delegacia. No entanto, segundo o delegado Ricardo Silva Dias, que conduziu o inquérito, ao ser pressionado, caiu num choro compulsivo e negou a autoria.
O delegado depôs logo após Douglas. Entre a saída de um e a presença de outro, a família dos réus reiterou à reportagem o rapaz como autor do crime. Embora os advogados de Martins e Lopes fossem mais discretos, pressionaram Douglas. Informaram ao rapaz que ele poderia contar detalhes sem ser julgado de novamente. Apontaram também que num depoimento que consta no processo ele dava detalhes como quem teria presenciado.
Embate
A pressão sofrida pela testemunha Douglas Rodrigues Alvares resultou num desentendimento entre o advogado Lino José Henriques de Melo Júnior e o promotor João Henrique Ferreira. O juiz Benedito Okuno interveio. Logo na sequência, o magistrado perguntou a Douglas onde ele havia sido mais pressionado (no Fórum ou na delegacia, por exemplo). Douglas respondeu que durante o julgamento. A iniciativa do juiz desagradou o advogado, que questionou a intervenção e pediu que sua reprova constasse nos autos. Após o ápice de tensão, a impressão que ficou é que julgamento havia sido definido ali.
Difícil
A segunda testemunha de acusação a ser ouvida foi Thaís Aparecida Lopes, sobrinha de Roberto Carlos Lopes e ex-companheira de Evanildo Fontes Martins. Ela assumiu ter ajudado a colocar o corpo de Sapé no carro que a vítima dirigia até ser emboscada. Num depoimento truncado, apontou Douglas Rodrigues Alvares como autor do crime e alegou ter sido ameaçada por ele para empurrar o corpo e colocá-lo no veículo.
Como caiu em contradição com que dissera em depoimentos anteriores, alegou que o delegado falseou suas declarações.O tio e um advogado dele fizeram reclamações de natureza semelhantes, rechaçadas pelo delegado Ricardo Silva Dias, a quinta testemunha de acusação. Roberto Carlos Lopes, inclusive, alegou ter sido torturado. O delegado reiterou a intenção de processá-lo pela afirmação, que refuta.
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Júri do caso é formado somente por mulheres
O destino do caseiro Roberto Carlos Lopes e do pintor Evanildo Fontes Martins foi definido por mulheres. Todos os sete jurados que formaram o Conselho de Sentença e são considerados os juízes de fato eram do sexo feminino. A defesa dos réus recusou os homens sorteados pelo juiz de direito dentre os 25 componentes do Tribunal do Júri. Com a decisão, a defesa dos réus priorizou a capacidade das mulheres em se atentarem aos detalhes.
No plenário lotado, com mais de 200 pessoas, a estratégia foi questionada. Alguns advogados acreditam que as mulheres são mais sensíveis aos crimes que atentam contra a vida. A escolha dos jurados foi feita logo após a instalação da sessão, às 10h10. Cerca de 20 minutos depois, o salão do júri foi esvaziado para que uma testemunha fosse ouvida. Ela pediu proteção. Só depois de aproximadamente 50 minutos é que todos voltaram a seus assentos, inclusive os réus.
Bíblia e amor
A sessão do júri foi instalada às 10h10. Na sequência, o juiz Benedito Okuno, da 1.ª Vara Criminal, que é evangélico, iniciou a leitura da 1ª Carta aos Corintios, que tratava do amor. A concluir a leitura, afirmou todos os homens, mulheres, jovens e crianças têm a necessidade de sentirem-se amados e que todos temos capacidade de amar. O que falta é saber expressá-lo. Por conta da dificuldade, crimes como o julgado ontem são registrados.
Acrescentou que o amor tem cinco linguagens: toque físico, palavras de encorajamento, tempo de dedicação ao outro, presentes e atos de serviço. Fez a análise num plenário lotado, com mais 220 pessoas, sentadas e em pé. Além de familiares e amigos das partes, compareceram advogados, estudantes e curiosos. Houve, inclusive, quem quisesse fotografar o julgamento, iniciativa impedida posteriormente.
Inicialmente, todos acompanharam as testemunhas de acusação. Ela seriam sete, mas duas foram dispensadas. Depois, outras três arroladas pela defesa seriam ouvidas para que o debate tivesse início. A ordem é seguida para garantir a ampla defesa.
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Familiares da vítima e dos réus se emocionam
Os familiares do caseiro Roberto Carlos Lopes e do pintor Evanildo Fontes Martins se concentraram na última fila do plenário da Sala do Júri. Em grande número, inclusive com bebês à tiracolo, ficaram próximos e passavam constantemente pela porta de entrada do salão para que fossem observados por eles. A ideia era demonstrar não só a presença, mas também passar-lhes força. Quando ambos entraram no salão, se emocionaram, assim como familiares de Sapé – que permaneceram na primeira e segunda filas.
A filha da vítima, Tainã Franco, chorou em várias oportunidades. Era a mais emotiva. Esteve ladeada do irmão Raoni Franco. O terceiro filho de Sapé, Rudá, está na Espanha. Tainã e Raoni permaneceram distantes de Aureliza Ambrósia Franco, mãe de Sapé, que também foi às lágrimas quando os réus entraram. Enquanto a testemunha protegida prestava depoimento, ela comentou com a reportagem que não havia conseguido dormir na noite que antecedeu o julgamento. Disse que também lhe tirou o sono pensar no desgosto das mães dos acusados, que não criaram seus filhos para cometer um crime dessa natureza.
Ela e os netos clamaram por Justiça, assim como a filha de Roberto Carlos Lopes, Camila Aparecida Lopes. Ela chorou em algumas oportunidades, especialmente durante o depoimento de Douglas, com quem diz ter convivido, sem que ele levantasse qualquer suspeita.