Polícia

Crime migra para cidades pequenas

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos anos, a violência migrou dos grandes centros urbanos para os pequenos municípios do País. Pesquisa realizada pelo Instituto Sangari, de São Paulo, e divulgada esta semana revela que cidades antes consideradas pacatas e bucólicas, como Iaras e Gália, ambas na região de Bauru, têm apresentado índices de criminalidade superiores aos de importantes capitais.

O estudo, denominado “Mapa da Violência 2010 - Anatomia dos Homicídios no Brasil” aponta que a pequena Iaras, com seus pouco mais de 5.600 habitantes, possui uma taxa média de assassinatos (47,1, para cada grupo de 100 mil habitantes) três vezes maior que a de São Paulo (17,4).

Não por acaso, Iaras aparece em segundo lugar na lista das mais violentas do Estado. O fenômeno da migração da violência se repete quando são levados em conta os índices de homicídio registrados nos grandes centros regionais e nas cidades vizinhas.

Entre 2003 e 2007 (período analisado no estudo), a taxa média de assassinatos em Bauru (7,7, numa população estimada de 362 mil pessoas) foi menor do que em Gália (6.600 habitantes e índice de 11,3) e Piratininga (média de 8,8 por 100 mil moradores, numa população estimada de 12 mil habitantes).

Aliás, o estudo aponta que a violência tem diminuído em Bauru, em comparação aos municípios do mesmo porte. No período em questão, a cidade apresentou um índice de homicídios por 100 mil habitantes inferior ao de Presidente Prudente (19,6), Piracicaba (16,7), Jundiaí (14,2), São José do Rio Preto (11,1) e Franca (7,8). Entre os importantes centros regionais do Estado, apenas Marília saiu-se melhor do que Bauru, com média de 6,6.

O comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI), major Nelson Garcia, acredita que, comparada a outras grandes cidades de São Paulo, Bauru está muito melhor. “Isso não significa que não tenhamos problemas. Precisamos continuar realizando nosso trabalho com firmeza, com foco no combate ao tráfico de drogas, que é o motor da criminalidade em nosso País”, afirma.

Para o autor do estudo, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, vários fatores poderiam explicar a migração da violência para as cidades pequenas. De acordo com ele, a partir de 2000, o Fundo Nacional de Segurança Pública passou a direcionar grandes volumes de recursos para as cidades populosas, permitindo às autoridades desses locais se equiparem melhor para o combate à criminalidade. Nesse mesmo período, o processo de descentralização econômica se aprofundou no Brasil.

“Desde os anos 90, as pequenas cidades têm recebido grandes investimentos por parte das empresas. Isso fez com que aumentasse o volume de dinheiro e de mão-de-obra circulando nesses locais, que, por sua vez, não estavam preparados para a enfrentar a criminalidade”, pondera Waiselfisz.

A “profissionalização” das organizações criminosas, inclusive nos municípios do Interior, também teria colaborado para o aumento da violência. Waiselfisz lembra que, por outro lado, as condições de registro dos índices de violência se aprimoraram no País.

“Hoje, quase todos os homicídios ocorridos no Brasil são registrados nos cartórios. Antes, principalmente nas cidades mais distantes, a pessoa era assassinada e depois atirada em alguma vala clandestina, sem que nenhuma autoridade tomasse conhecimento”, diz Waiselfisz. No Interior do País, os homicídios cresceram 37,1%, na última década, enquanto em grandes cidades como Bauru houve redução de 19%. Nas capitais, a redução foi de 25%.

O “Mapa da Violência 2010 - Anatomia dos Homicídios no Brasil” analisou dados sobre assassinatos referentes a mais de 5.500 municípios brasileiros. Jurena, no Mato Grosso, foi considerada a cidade mais violenta do País, com taxa de 139 homicídios por 100 mil habitantes. Itapecerica da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, foi a “campeã” dos assassinatos no Estado, com índice de 47,3. No ranking nacional, a cidade paulista ficou em 172º lugar, enquanto Bauru ocupou a 2.985ª posição.

Entre os seis piores

O estudo “Mapa da Violência 2010 - Anatomia dos Homicídios no Brasil”, realizado pelo Instituto Sangari, de São Paulo, também analisou as taxas de homicídio por 100 mil habitantes em 91 países dos cinco continentes. Nesse ranking, cinco das seis primeiras posições são ocupadas por nações latino-americanas. As Ilhas Virgens, país de língua inglesa dominado pelos Estados Unidos, também alcançou espaço no “pódio” mundial da violência. O Brasil ficou em sexto lugar, com média de 25,8.

Seu desempenho foi pior do que os dos vizinhos Paraguai (12,3), Argentina (5,2) e Uruguai (4,5), ou mesmo que o do combalido Haiti, a nação mais pobres das Américas, que, no estudo, apresentou um índice de 2,1 homicídios por 100 mil habitantes.

O Brasil só se saiu melhor do que El Salvador (50,1), Colômbia (45,4), Guatemala (34,5), Ilhas Virgens (31,9) e Venezuela (30,1).

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Jovens negros têm mais chance de serem mortos

O estudo “Mapa da Violência 2010 - Anatomia dos Homicídios no Brasil”, do Instituto Sangari, de São Paulo, também constatou que os jovens negros possuem mais chance do que os brancos de morrerem vítimas da violência.

Segundo o trabalho, em 2002, morria 1,7 negro para cada jovem branco da mesma faixa etária. Cinco anos depois, essa relação saltou para 2,6, para 1. Entre a população branca, a taxa de homicídios caiu 31,6%, no período. Já entre os negros, houve um aumento de 5,3%.

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