“Quando a bossa chegou, nós já fazíamos arranjos arrojados, assimilando facilmente o novo movimento”, considera o veterano músico Severino Filho, 82 anos, sobre a trajetória de Os Cariocas, que já somava mais de 15 anos quando João Gilberto gravou “Chega de Saudade”, inaugurando assim, em 1958, a bossa nova.
Depois de 62 anos de existência, o grupo diz não mais estranhar o número de apreciadores que eles e o próprio estilo continuam a atrair. “A bossa nova tem um público fiel, ávido por essa música. É um público que nem aumenta nem diminui muito, é perene. E, ao contrário do que muitos possam imaginar, o público jovem também comparece aos shows. Gostam do som mesmo sem ter vivido na época que o movimento estourou”, avalia Neil Teixeira, durante coletiva de imprensa realizada ontem, no Alameda Quality Center, antes da apresentação do grupo pela série “Era de Ouro”.
Quando questionados sobre a possível elitização do estilo, os músicos são unânimes em discordar. “Ninguém pode gostar do que não conhece. No Rio, por exemplo, estavam apresentando música clássica na praia e lotava de gente de tudo o que era lugar. O que elitiza qualquer música é o fato das pessoas não terem condições de pagar pelo acesso”, defende Eloi Vicente. “Não há distinção de gosto por classe social. O que há é a negação da informação. A bossa nova pode permear por todas as classes como nós percebemos que isso acontece. Poderia ser muito mais, na verdade, e estamos aí lutando para isso”, completa Hernane Castro.
Prova da avaliação do grupo é o recém-lançado “Nossa Alma Canta”, disco muito bem recebido pela crítica. O álbum é o segundo lançamento dessa que é a oitava formação de Os Cariocas (o primeiro foi “Bossa Carioca”, de 2004). Já há de sete anos no conjunto, Teixeira e Castro podem ser considerados o “sangue novo” do grupo. “Tirando o fato deles dormirem muito mais cedo do que eu, a diferença de idade é só um detalhe”, brinca Teixeira, cerca de 40 anos mais jovem que Severino, único remanescente da formação original.
“O mais engraçado é entrarmos em estúdio ou estarmos no palco com pessoas como o Milton Nascimento, que é um dos nossos ídolos ao mesmo tempo que tem Os Cariocas como referência. Sorte nossa fazer parte de um grupo com tanta história”, finalizam.