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HB suspende cirurgias agendadas

Por Luciana La Fortezza | Com Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 6 min

Sem dispor de materiais simples como gaze, luvas e máscaras, o Hospital de Base (HB) de Bauru suspendeu ontem todas as cirurgias já agendadas. Apenas operações de urgência e emergência estão mantidas. Quem depende do procedimento mas não corre risco de morte iminente terá de aguardar por tempo indeterminado.

A situação representa o ápice da crise financeira da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), mantenedora do HB e da Maternidade Santa Isabel, estão suspensas as cirurgias eletivas desde o final do ano passado. O problema revolta pacientes e seus familiares que dependem da assistência médica e não têm a quem recorrer. Alegam que não podem ser penalizados em virtude dos escândalos envolvendo a associação.

“Os médicos e enfermeiros ficam estressados porque acompanham o sofrimento dos pacientes e não podem ajudar. O governo estadual e a prefeitura precisam ajudar. Não podem abandonar”, comenta Aparecida Maria dos Santos Aranha, acompanhante do filho de 25 anos. No dia 14 de março, ele sofreu um acidente em Brotas e ficou tetraplégico. Estava com um equipamento preso ao crânio para descomprimir a medula desde o dia do acidente, num leito da unidade de terapia intensiva (UTI) do HB. Por conta da dor, entrou na fase de reivindicar a morte.

Ontem, sob alegação de falta de gaze, a cirurgia à qual seria submetido seria desmarcada pela terceira vez. “Perdi o controle, a classe. Disse que eu mesma compraria a gaze. Depois, pedi desculpas à equipe médica, aos funcionários. Eles são muito bons, humanos”, ressalta. O filho dela, Elder dos Santos Aranha, por fim, foi operado. Sua situação era tão delicada que, sob risco de morte, não poderia ser removido para outro hospital onde a cirurgia pudesse ser feita com celeridade.

Ainda assim, o HB adiou por duas vezes a cirurgia. Da primeira vez faltava sangue compatível com o dele para o caso de necessidade. Déficit de material adiou a segunda operação – mesma justificativa utilizada ontem.

Alta

Já nos casos menos complexos, a alta médica foi a saída encontrada pelo HB. Ontem à tarde, Heraldo Zanini acreditava que seu filho Rafael, com quatro fraturas no braço desde de sábado à noite, corria o risco de ser liberado do hospital. “Me disseram que a cirurgia deveria ser feita em no máximo 48 horas e até agora não temos previsão. Não tem material e ele pode ficar com sequela”, lamenta. Uma outra acompanhante em situação semelhante ouviu boatos de que as cirurgias haviam sido suspensas porque os anestesistas se negaram a fazer as operações.

Uma funcionária que pediu para não ser identificada informou que realmente um anestesiologista se recusou a fazer a cirurgia justamente por falta de material. Médicos teriam comentado que não jogariam o registro do Cobselho Regional de Medicina (CRM) no lixo. Ela informou que 20 cirurgias foram desmarcadas ontem, mas que há dias algumas menos urgentes já estavam canceladas. A informação foi reiterada pelo interventor da AHB, Fábio Tadeu Teixeira.

De acordo com ele, o problema já se arrasta há três semanas. Explica que o material e medicamentos restantes são destinados a casos urgentes. Calculou, no máximo, 14 cancelamentos. A expectativa é que em duas semanas a situação possa ser normalizada porque a Prefeitura de Bauru adiantou a liberação de recursos oriundos do Projeto Santa Casa. Entrarão na conta da AHB R$ 315 mil, provavelmente na próxima semana.

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DRS vai encaminhar pacientes a 2 hospitais

Os pacientes que estavam com cirurgia agendada no Hospital de Base serão encaminhados, pela Diretoria Regional de Saúde-6 (DRS-6), para o Hospital Estadual, em Bauru, ou para o Hospital das Clínicas de Botucatu, mantido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). A informação é da Secretaria do Estado da Saúde, que ressalta que terá de ser feito novo agendamento uma vez que cada hospital trabalha com cronograma próprio.

Para o processo de agendamento da cirurgia ser iniciado outra vez, o Hospital de Base (HB) precisa passar ao DRS-6 a relação dos pacientes que tiveram cirurgia cancelada. A Secretaria de Saúde frisa que as cirurgias de urgência e emergência no HB estão mantidas.

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Hipótese de fechamento é afastada

Embora admita ser o ápice da crise financeira da AHB, o interventor da associação, Fábio Tadeu Teixeira, descarta a possibilidade do HB fechar as portas. “Bauru não sobrevive sem o hospital. Esforços vem sendo feitos pelo Estado e município”, informou. O problema é que o socorro parece ser prestado numa velocidade aquém da necessária.

O município liberou recursos oriundos do Projeto Santa Casa. Entrarão na conta da AHB R$ 315 mil, verba excepcional. Já o Estado colabora, em média, com R$ 800 mil mensais. Entre setembro e outubro do ano passado foram repassados R$ 4,4 milhões à associação. No entanto, como a arrecadação caiu, o auxílio parou de pingar em 2010. Segundo Teixeira, o Estado não tem obrigação em enviar o recurso e, mesmo assim, se preocupa com a situação da entidade. Colocará as parcelas em dia assim que for possível, comenta o interventor.

De acordo com ele, R$ 2,4 milhões também caem todo mês no caixa da associação por conta do faturamento com Sistema Único de Saúde. No entanto, só de custeio dos dois hospitais (HB e Maternidade) são gastos a cada 30 dias R$ 3,5 milhões. No mesmo período, a entidade paga R$ 1 milhão em dívidas. O déficit é de R$ 1 milhão por mês.

Não fosse necessário pagar a dívida milionária, seria possível equalizar as contas e comprar o material necessário. Sem crédito no mercado, os fornecedores só atendem a AHB desde que o pagamento pelos produtos adquiridos seja antecipado. Sem atividade por conta da suspensão das cirurgias, muitos funcionários estão colocando em dia o banco de horas. No entanto, o HB funciona com capacidade máxima. Tem 209 leitos.

Cobrança

Embora o interventor da AHB, Fábio Tadeu Teixeira, ressalte que o Estado não tem a obrigação de liberar os R$ 800 mil mensais (que pararam de pingar neste ano), o Conselho Municipal de Saúde tem outra opinião. Para o presidente da entidade, Carlos Alberto Martins, que esteve reunido ontem com o secretário Municipal de Saúde, Fernando Monti, para discutir o assunto, trata-se de uma responsabilidade do governo estadual. Justamente por essa razão, o município ‘estaria de mãos atadas’.

Diante da situação, Martins voltará a discutir o problema com o Ministério Público, que há anos tem tentado mediar as crises na saúde municipal. Extraoficialmente, comenta-se que o Estado teria dificuldade em justificar os aportes por conta do escândalo envolvendo a AHB. No final do ano passado, a Polícia Federal e o Ministério Público desencadearam a Operação Odontoma, que investiga irregularidades nos hospitais geridos pela associação.

No final de outubro de 2009 foram presos Joseph Saab, presidente da associação há 14 anos, na época; Marcelo Saab, dentista e filho do presidente; e mais quatro pessoas da diretoria. Liberados no dia seguinte às prisões, são acusados de participar de um esquema de desvio de recursos públicos, superfaturamento e cobranças indevidas de serviços.

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