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Dúvidas do euro

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As incertezas com relação ao futuro da moeda comum européia cresceram muito nas últimas semanas, após a “descoberta” da fragilidade da economia grega e a constatação de que Portugal, Espanha e Itália também enfrentam sérios problemas de desarranjos financeiros. Eles estão trazendo à tona as dificuldades que se encontravam meio submersas desde o início desta construção política extraordinária que é o Euro.

Foi o Euro o instrumento que permitiu a união política dos países europeus, com a adesão de 27 países (dos quais 16 estão usando a moeda única) e, mais importante, conseguiu a aproximação dos “inimigos históricos” França e Alemanha, cujas divergências levaram a inúmeras perturbações que deram causa a alguns dos maiores conflitos armados que a humanidade sofreu.

A criação do Euro, em 1 de janeiro de 1999, foi um ato heróico para acelerar a integração política e torná-la praticamente irreversível. Sustentá-lo é condição necessária e preliminar para a continuidade dessa integração que será, certamente, um dos mais relevantes eventos políticos do presente século. Não é realista pensar, no entanto, que não pode haver retrocesso. A história lembra que uniões monetárias (sem moeda única, uniformização tarifária e câmbio fixo) foram dissolvidas, como por exemplo a União Monetária Latina criada em 1865 e que terminou no início da Primeira Guerra Mundial.

Em 1999, importantes economistas europeus resistiram à moeda única, não porque repudiassem a idéia, mas por considerar imprudente e apressado o seu lançamento: não estavam convencidos (notadamente os alemães) da possibilidade de uma harmonização das políticas fiscais (que depende da honestidade e da vontade dos diferentes governos) das políticas salariais (que dependem do poder e da inteligência dos sindicatos) e da evolução da produtividade entre os países participantes.

O objetivo político da criação do Euro era de tal dimensão que não poderia ser retardado por “tecnicalidades econômicas” (que afinal se mostraram corretas!). Foi um daqueles saltos no escuro que a genialidade e intuição políticas realizam para atingir um fim majestoso que transcende ao mísero calculismo economístico! A consolidação da União Européia é certamente um objetivo da maior importância para toda a humanidade, pois permitirá trazer a paz definitiva para uma região conflagrada e submetida à barbárie de guerras que envolviam quase todo o Continente, as duas últimas de alcance mundial e de efeitos devastadores.

A união econômica dos países é apenas um dos instrumentos para a realização da união política e, desde o início, poucos duvidavam das dificuldades imensas que teriam de superar. No que se refere à economia, praticamente todos reverenciaram as normas da política fiscal, mas cada um a praticou à sua maneira, (mais ou menos responsável); quanto à “harmonização” das políticas trabalhistas pouco se avançou, devido às diferenças de avaliação e das formas de relacionamento entre governos e sindicatos e dos próprios sindicatos entre si.

A crise do Euro obviamente tem a ver com o exercício dessas políticas mas, no fundamental, a origem dos problemas “descobertos” na Grécia mostra o enorme alcance das patifarias que dominaram, mais uma vez, o sistema financeiro em boa parte do mundo, revelando: a) a aceitação da imoralidade ínsita nas políticas econômicas dos países; b) a disposição sem vergonha do “soberano” de endividar-se irresponsavelmente, com a conivência do insopitável desejo de lucro de agentes financeiros; c) o destino de “andar sempre atrás da curva” das agências oficiais de controle dos mecanismos financeiros e a falência da credibilidade das agências privadas de risco...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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