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No Jd. Pagani, apito avisa sobre ladrão

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Moradores do Jardim Pagani, zona leste de Bauru, estão assustados com uma onda de furtos e roubos que vem acontecendo no bairro há pouco mais de um mês. Em sete dias foram registrados seis furtos. Em uma única rua, pelo menos três deles receberam a “visita” indesejável de ladrão ou ladrões.

Para afastar o risco de figurar na lista de vítimas da violência urbana, eles adotaram uma estratégia caseira, mas que segundo os próprios moradores, conseguiu reduzir a zero as ocorrências do tipo na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais. Em situação de emergência, eles sacam de apitos para comunicar ao vizinho que está em perigo.

Recheado de códigos, o equipamento serve para avisar o mais próximo que há suspeitos na área ou, até mesmo, que está em apuros com o ladrão.

O “apitaço” foi adotado nesta semana, fruto da sugestão de uma moradora que assistiu pela televisão uma matéria que versava sobre o assunto. Em Uberlândia, a estratégia foi implantada em um bairro da cidade pelos moradores que queriam mais tranquilidade. Em seis meses, o resultado foi o esperado: nenhum registro de crimes contra o patrimônio.

A modalidade de segurança no município mineiro recebeu o nome de projeto “Vizinho Ajudando seu Vizinho”. Com menos pompa que os mineiros, os moradores do Jardim Pagani fisgaram a ideia e adaptaram para as suas necessidades.

Uma moradora do bairro, que não quis ser identificada, tratou de comprar um pacote com 50 apitos. Cada morador que faz parte do plano ficou com dois deles.

Código

O passo seguinte foi “codificar” a quantidade de apitadas com um significado. “Uma apitada significa tal situação, cinco já é outra, depende do grau da dificuldade que a pessoa está tendo. Vamos sair para o quintal da casa e apitar. Não podemos divulgar os códigos, mas a quantidade de apitadas é que vai dizer ao vizinho o que está ocorrendo”, explicou outra moradora, que também prefere ficar no anonimato com medo de represália dos marginais.

A estratégia inclui ainda um sinal de luz, uma agenda telefônica e avisos. O sinal de luz segue o apito, explica outra moradora.

“Assim que uma pessoa ouvir o apito, acende a luz para que o vizinho solicitante entenda que ele já recebeu a mensagem e, dependendo da quantidade de apitos, vai tomar as providências previamente combinadas, sinônimo até de acionar a polícia.”

A agenda telefônica é outra “arma” contra os ladrões. Assim que alguém vê qualquer suspeito ou movimentação no bairro, um liga para o outro avisando e todos passam a observar seu patrimônio.

Já os avisos são verbais e seguem um roteiro que remete a um comportamento antigo, que nesse caso pode ser uma saída estratégica. Um toma conta da casa do outro, um verdadeiro monitoramento exclusivo.

Cada vez que um dos dez vizinhos que fizeram o pacto de segurança vai sair, avisa o que mora ao lado ou na frente. “Avisamos que vamos sair, se vamos voltar ou ficar fora. Desta maneira, qualquer movimentação em nossa casa será um sinal de alerta para o vizinho acionar a polícia.”

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Cerca e alarmes

Além das soluções caseiras, os moradores do Jardim Pagani estão fazendo a prevenção contra furtos e roubos. As empresas de segurança privada que o digam. Ontem, instaladores de alarmes e cercas elétricas estavam por todo o bairro, colocando equipamentos de prevenção que dificultam a ação dos ladrões.

Um morador diz que precisou fazer o investimento para não ter dor de cabeça. “O bairro era tranquilo, mas há um mês começaram a acontecer furtos sequenciais e até um roubo. Os ladrões entraram em uma residência onde a mulher está doente na cama. Eles fizeram uma verdadeira limpa na casa dela. Eu fiz seguro da casa.”

Na casa dele, as visitas indesejáveis estiveram por duas vezes. Na última levaram um relógio de ouro, um aparelho celular e roupas, mas ele suspeita que os larápios queriam dinheiro. “Eles reviraram a casa, mexeram em tudo.”

A casa dele também serviu de passagem para o ladrão acessar a casa vizinha, no início desta semana. “Eles entraram no quintal de casa e pularam para a casa vizinha. Foram surpreendidos pelos cachorros e não levaram nada.”

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À luz do dia

Os ladrões agem a qualquer hora do dia ou da noite, constatam os moradores. Uma moradora conta que na última quarta-feira, por volta das 15h, trancou sua casa e foi visitar uma vizinha, ficando por lá cerca de uma hora. “Meu marido chegou e veio me avisar que o vitrô da cozinha tinha sido arrombado. Os ladrões levaram notebook, webcam, moden, um celular e R$ 80,00 em dinheiro.”

A mulher confessa que está insegura e que se a onda de furtos e roubos continuar, vai encabeçar um movimento mais ostensivo. “Vamos estudar a possibilidade de adotar um vigilante. Tenho filho que faz faculdade e chega em casa sozinho, não pretendemos ser vítimas de roubo.”

Para ela, a iluminação das ruas e ruelas é ineficiente. “As quadras do bairro são muito grandes. No meio delas têm ruelas para facilitar o acesso da rua paralela, porém, elas não têm iluminação e estão com mato alto. Isso ajuda o ladrão, que pode se esconder rapidamente.”

Uma casa abandonada e de fácil acesso, a cerca de 20 metros da rodovia Bauru-Iacanga e 50 metros da rodovia Marechal Rondon, segundo a moradora, serve de esconderijo para ladrões e viciados. “Eles estão sempre por lá.”

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Bomba para comunicar perigo

Estratégia semelhante à dos apitos adotada no Jardim Pagani tem sido usada por moradores de uma rua da zona sul de Bauru. Eles usam bombas juninas para espantar o ladrão e, ao mesmo tempo, avisar o vizinho que está em dificuldade. Todos mantêm as bombas em casa e, quando elas explodem, um liga para o outro e também para a polícia.

Uma moradora, que não quer ser identificada, conta que próximo à casa dela tem uma praça onde marginais se reúnem na madrugada para consumo de maconha e crack. Quando ela ouve o grupo chegando, explode uma bomba que assusta os menos avisados e comunica aos vizinhos que eles estão na área.

Ela já foi vítima de furtos e, por temer ser vítima de roubo, combinou com a vizinhança o disparo de bombas. A iniciativa é acompanhada por troca de telefonemas entre os vizinhos e, se for o caso, o 190 da Polícia Militar é acionado.

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Todos são suspeitos

Os moradores do Jardim Pagani estão tão assustados que todo estranho que aparece na rua eles consideram suspeitos, mas a cisma tem procedência, explica um deles.

“Um vizinho saiu, portanto, a casa estava vazia. Uma moça ficou andando e foi acionar justamente a campainha daquela casa. Não acionou de mais nenhuma. Eu concluí que ela era uma olheira e fiquei esperta. Nós desconfiamos que um vem olhar para passar a mensagem para aquele que vai furtar.”

Numa outra ocasião, um menino se ofereceu para cortar e tirar os matos da calçada, e novamente os moradores ficaram observando a ação do menor. “Nós desconfiamos que no grupo de ladrões tem alguns menores, porque eles entram pelo vitrô.”

Os reclamantes querem entender porquê os cães não latem para os ladrões. “Eles devem ter algum jeito de fazer os cachorros ficarem silenciosos, porque onde entrou ladrão tinha cão e o animal não deu nenhum sinal sonoro de que havia estranho no quintal.”

Eles também se penitenciam diante de tanta desconfiança. “Muitas vezes, a pessoa que passa pela rua não é um marginal e não tem segundas intenções, mas estamos tão apavorados que ficamos achando que ele pode fazer parte do grupo que age no bairro.”

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