Sofás velhos, cargas de alimentos estragados, pneus, animais mortos, entulho e material restante de capotamentos. Todos e outros tipos de detritos são facilmente encontrados a margens de algumas estradas, principalmente aquelas que ainda não foram entregues à concessão privada.
Na rodovia Cezário José de Castilho (SP-321), a Bauru-Iacanga, além de latas e garrafas PET facilmente observadas no acostamento, a paisagem ainda é arranhada por placas e caixas de madeira, abandonadas ao lado da pista de rolamento, onde até mesmo embalagens vazia de medicamentos chegam a ser encontradas, em área rural já no município de Arealva, após a rotatória de acesso ao aeroporto Moussa Tobias.
Apesar de sinalização existente na rodovia, sobre a proibição do despejo de lixo ao lado da via, motoristas parecem ignorar a legislação, que prevê multa para o delito. Próximo a Bauru, ao lado do acesso ao bairro Pousada da Esperança, móveis abandonados, como um sofá, se misturam ao lixo doméstico espalhado.
“Cachorro morto a gente acha direto”, conta o catador Willis Fernando Braz Capelli, que afirma trabalhar para o Departamento de Estradas e Rodagem (DER). “Também tem muito resto de comida, lixo de casa. As pessoas jogam e vão embora”, lamenta.
Somente na primeira hora de trabalho durante a quarta-feira, ele contabilizava o recolhimento de sete sacos, com capacidade para 50 litros cada, de dejetos encontrados nas faixas de domínio da Bauru-Marília. “Tem dia que, ao final do trabalho chego a recolher até 30 sacos”, conta o funcionário.
Fábio Abritta Filho, engenheiro diretor da concessionária Via Rondon, que administra a SP-300 no trecho Oeste, entre Bauru e Castilho, vai além. Ao relatar sobre o que os funcionários da empresa já encontraram às margens das estradas administradas pela companhia, ele condena a falta de educação de parte dos usuários.
“Muita gente acha que pode fazer o que quer na estrada, já vimos até limpeza do carro no acostamento. É uma questão de educação, não é raro encontrarmos geladeiras e outros eletrodomésticos antigos. A faixa de domínio é um museu aberto”, detalha o diretor da concessionária, que promove a limpeza das vias três vezes por semana.
Apenas no trecho entre Bauru e Lins, enumera o engenheiro, são retiradas, anualmente, 96 toneladas de lixo. Até o final do trecho Oeste, de 331 quilômetros, em Castilho, acentua Abritta, funcionários da concessionária recolhem 210 mil quilos de rejeitos durante 12 meses. “Lixo atrai rato, barata, escorpião. A natureza devolve as agressões”, conceitua. “Não só as estradas, mas rios e vegetação próximo também são poluídos, pois a ação do vento não deixa o lixo apenas na pista”, enfatiza João Rodrigues, da Centrovias.
Lixão
Outro alvo constante dos ‘porcos ao volante’ é a rodovia João Baptista Cabral Rennó (SP-225), a Bauru-Ipaussu. De acordo com Wallace Merlin, coordenador de Meio Ambiente da Concessionária Auto Raposo Tavares (Cart), administradora da estrada, quando a companhia iniciou os trabalhos de manutenção chegou a encontrar carga de frango estragada, camuflada atrás do matagal ao lado do pavimento. “Havia capim colonhão com até três metros de altura. Após o corte, aparecia a sujeira embaixo”, comenta Merlin, ao lembrar que a carga estragada foi encontrada por funcionários nas proximidades do condomínio Lago Sul, em Bauru. “Algum motorista aproveitou o mato alto e jogou a carga vencida”, acentua.
Atualmente, com a jardinagem periódica é mais difícil encontrar esse tipo de rejeito na estrada, salienta o representante da Cart. Contudo, lixo comumente atirado da janela dos carros ainda é constante, contudo, não graças a educação, mas sim limpeza diária, não causa grandes estragos. “Como fazemos manutenção rotineira, o lixo menor não chega a ser problema”, minimiza o coordenador da empresa, que recolheu, no primeiro ano de operação, 15 toneladas de resíduos, entre Bauru e Presidente Prudente.
____________________
Perigo espreita atrás da sujeira
Os rejeitos jogados nas estradas podem camuflar grande risco aos motoristas. Mesmo uma pequena lata de alumínio pode acarretar grandes estragos. Embalagens de refrigerantes – quando não de cerveja, também facilmente vistas amassadas ao lado do asfalto -, podem danificar parabrisas ou ao menos atrapalhar a visibilidade de motoristas ou invadir a trajetória de motociclistas.
Um dos usuários de rodovia que passou susto ao volante quando surpreendido em sua rota por material descartado no meio da rodovia é o caminhoneiro paulistano Ricardo Andrade dos Santos, de 26 anos.
De passagem pela região de Bauru na semana passada, o motorista, que transporta flúor para a Sabesp, recorda recente ocasião em que o lixo representou perigo de acidente. “Já vi lona de encerado e tocos de madeira caídos na Raposo Tavares, perto de Ourinhos. Consegui desviar para o acostamento, mas se o trânsito estivesse maior, seria difícil”, considera o condutor que, apesar de ciente dos problemas causados por sujeira nas estradas, confessa que já chegou a arremessar lixo pela janela. “Às vezes acontece e depois a gente se arrepende. Mas sempre procuro deixar o lixo de lado e jogar fora quando paro em algum posto”, garante.
Já o motorista Antônio Carlos Batista Teixeira, de 64 anos, afirma que a única solução é mesmo o pedágio. Apesar de rodar altas quilometragens, o condutor, morador de Ibitinga, diz não haver outra saída, a não ser pagar para ter pista limpa. “Acho que a solução mesmo é o pedágio. Só acho, no entanto, que a cobrança deveria ser mais em conta. Em Rio Claro, cobram R$ 11,60 por eixo. Sou a favor de estradas melhores e mais limpas, mas também não podemos quebrar”, ressalva. “Acho que pedágio a R$ 3,00 é o ideal, aí sim poderia haver em todas as estradas”, opina.