Não importa o dia nem o horário. Basta não estar chovendo para que o Parque Vitória Régia, localizado na Vila Universitária, receba diariamente a visita de pessoas vindas de diversos bairros de Bauru.
As atividades, para serem praticadas no local, ficam por conta da criatividade de quem frequenta o parque. Há quem prefira caminhar, utilizar o gramado para dar o rotineiro passeio com os animais de estimação e há ainda aqueles que enxergam o parque um ótimo espaço para acalmar os ânimos da criançada.
Esse é o caso da aposentada Maria Sueli Vieira, 65 anos. Ela mora nas redondezas do parque e diariamente conta com a companhia dos três netos no período da tarde. Quem conhece as crianças, logo entende a razão pela qual ela gosta tanto do local.
“Tem dia que eles estão agitados demais e o quintal da minha casa fica pequeno para tanta energia acumulada. Por isso trago eles aqui, onde tem espaço suficiente para eles correrem e queimarem as energias”, explica Maria Sueli.
Logo depois da entrevista, a afirmação da avó ficou comprovada. Felizes da vida porque iriam sair no jornal, as crianças saíram em ‘desabalada carreira’ pelo parque cantarolando: “A gente vai sair no jornal! A gente vai sair no jornal!”. Também foi o trio que convenceu a avó a posar para a foto.
Já Nathália Alves dos Santos e os amigos Gilberto Tambelini de Oliveira e Luiz Paulo Lopes elegeram as sombras criadas pelas árvores do Parque Vitória Régia como uma espécie de escritório oficial.
Todos os dias eles se reúnem no local, acompanhados do cachorro Shake e da rata Esperança, e, embalados pelo som de um rádio, confeccionam bijuterias artesanais, que depois serão vendidas em outros bairros e cidades.
“Sempre que temos de fazer novas peças, a gente vêm até aqui. A energia deste lugar é massa. Transmite uma tranquilidade. Em nenhuma outra cidade que já passamos conseguimos encontrar um lugar em que a produção fluísse tanto quanto aqui”, justifica Nathália.
A energia existente no local também foi o que motivou o malabarista Marcelo Brigatto Pinho, 28 anos, a eleger o Parque Vitória Régia como palco para suas apresentações dominicais. Ele era praticante de malabares e decidiu passar seus conhecimentos para outros bauruenses interessados na arte.
Foi por meio do Orkut que Marcelo convocou a primeira reunião, há cerca de quatro anos. Atualmente, todos os domingos, a partir das 14h, é possível encontrar cerca de 50 pessoas, que treinam a habilidade de manobrar bolinhas e claves no ar.
“Sentia a necessidade de divulgar a arte do malabares. Escolhi o Vitória Régia porque, além de ser um ponto de referência na cidade, é um local ao ar livre, que cria um clima informal e permite andar com pés descalços, encontrar amigos e relaxar da semana corrida”, justifica Marcelo.
____________________
Comércio e lazer
Aos segundos domingos de cada mês, o Parque Vitória Régia se transforma em palco para uma das cinco melhores feiras de artesanatos do País, segundo classificação em evento nacional recente. Na Feira Ubá, munidos de tendas e muitos produtos confeccionados manualmente, cerca de 80 artesãos preenchem os espaços do parque das 9h às 18h.
A feira é realizada desde 2003 e oferece aos seus visitantes produtos em tricô, ponto-cruz, biscuit, chinelos em pedrarias, bijuterias com sementes, esculturas em madeiras, entre outros.
Para coordenadora da atividade, Sônia Braz, 55 anos, as exposições no parque tornam especial o domingo dos artesãos participantes. “O local é maravilhoso, é uma delícia trabalhar no Vitória Régia, especialmente quando tem algum evento musical. Só é complicado nos dias de chuva”, afirma.
Quem também gosta dos dias ensolarados é José Onoel, 65 anos. Há quatro anos ele se mudou de Marília para Bauru e escolheu o parque para vender seus requisitados cocos gelados. Para ele, o movimento no Vitória Régia vai além de diversão, significa sua sobrevivência. Nos dias de maior movimento, José chega a vender cerca de 100 cocos.
____________________
Moradia
Se para muitos o Parque Vitória Régia é sinônimo de lazer e diversão, para Manoel Justino, 60 anos, o local representa uma solução para sua falta de alternativas. Há 37 anos, ele veio de Juazeiro do Norte, no Ceará, para tentar a vida na Cidade sem Limites, mas não teve sucesso. Sem família e sem um lar, Manoel acabou se acomodando na nascente do ribeirão das Flores, onde ‘mora’ atualmente.
Quem passa pelo local, dificilmente repara na figura suja e solitária, escondida no meio das árvores em declive, que compõem o cenário do local. Ao visitar o Parque Vitória Régia com a intenção de identificar pessoas que frequentam o local, a reportagem se deparou com Manoel, emaranhado entre os arbustos, falando sozinho.
Com a aproximação da equipe de reportagem, Manoel se mostrou acuado. Falava baixinho e respondia as perguntas de forma praticamente inaudível. “Venho aqui só para dormir, acho mais seguro. Quase ninguém me nota neste lugar”, justifica ele, que sonha em comprar o terreno do local para construir uma casa.
Manoel fala bem, tem um linguajar culto, mas não teve oportunidades. A frustração pode ser facilmente percebida em seu discurso. A cada cinco palavras que ele fala, uma é ‘trabalho’.