Já que estamos em ano eleitoral, é bom lembrar que nós não elegemos presidente, governador, prefeito, senadores, deputados e vereadores apenas para lhes dar emprego. Emprego que eles estendem a familiares e amigos e de onde tiram os recursos para aumentar o seu patrimônio e fazer a sua previdência particular. Nós lhes damos o emprego e os recursos, pagando os tributos, para que eles cuidem daquilo que nós, individualmente não podemos fazer, que é a administração dos interesses coletivos. Vivemos comunitariamente num município, que faz parte de um estado, parte de um país. O nosso bem estar envolve necessidades e problemas que afetam a todos e que só podem ser atendidos quando administrados pela representação da vontade conjunta da maioria. É para isso que os elegemos.
Muitas das tragédias urbanas que vêm acontecendo poderiam ser evitadas ou reduzidas a ocorrências de menor significado, se aqueles que elegemos não agissem apenas depois do acontecido, como quem coloca tranca depois que a casa foi arrombada. Se fossem aproveitados todos os conhecimentos disponíveis, adotando medidas preventivas e continuadas, enchentes e deslizamentos de encostas, possivelmente se reduziriam a acontecimentos controláveis. Mas isso exige uma administração voltada para o futuro e o futuro para o qual os políticos olham é aquele imediato e egoísta da sua próxima eleição. Não é aquele de longo prazo e de interesse coletivo, como ensinou o criador da teoria da administração, Henri Fayol: “Perscrutar o futuro e traçar o plano de ação.” Prever e planejar, eis a questão.
Em Carta Aberta às autoridades públicas, a ABGE – Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental e a ABMS – Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica lamentam o “acúmulo de erros e descasos na gestão do crescimento urbano de nossas cidades com relação às características geológicas e geotécnicas dos terrenos ocupados. Estes erros estão na origem comum e onipresente dos deslizamentos e enchentes que vêm crescentemente vitimando a sociedade brasileira, seja em vidas perdidas, patrimônios destruídos ou transtornos graves de toda a espécie.” E comentam a soma de conhecimentos existentes e à disposição das autoridades públicas. Entre eles a elaboração de Cartas Geotécnicas e Cartas de Risco, que são “documentos cartográficos que se utilizados de forma adequada evitariam ou reduziriam a um mínimo socialmente aceitável, a freqüência e a dimensão desses desastres. A elaboração desses documentos é o passo obrigatório para que em 2011 já se consiga reduzir substancialmente o caráter trágico desses acontecimentos. O contínuo monitoramento das áreas de risco, a remoção de moradias instáveis, a capacitação de técnicos municipais e estaduais e o treinamento das comunidades são atividades que devem ser mantidas o ano todo e não apenas nas épocas de chuvas e emergências.”
Aqui nós assistimos a essas tragédias e damos graças a Deus de não serem conosco. Apenas lembramos que em tempos passados havia um clube onde hoje está a Disbauto – Clube Paulista - que todos os anos ficava inundado. Fazia parte da ‘baixada do Silvino’, cruzamento da av. Nuno de Assis com a rua Araújo Leite. Essa área continua sendo uma área de risco, principalmente com a grande impermeabilização produzida pela av. Moussa Tobias e, agora, pela construção da av. Nações Norte. Lembramos, também, das inundações da rua Alfredo Maia, na Vila Falcão. Não somente elas voltarão a ser inundadas, como todas as várzeas são áreas de risco, com predominância das formadas pelo rio Bauru, no trecho que corta a cidade. Lembramos, também, do perigo permanente da parte inicial da av. Nações Unidas, onde já houve vítimas fatais. E o que existe de medidas preventivas, nesse sentido? Sabe-se da existência de um “Plano de Macrodrenagem”, mas se vem sendo aproveitado para estudos e medidas preventivas, deve ser em segredo, porque não há notícias a respeito. Vamos esperar manchetes como esta: “Prefeitura de Niterói sabia de risco e nada fez”, para depois lamentar e dar as explicações técnicas?
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras, articulista de Opinião