Zé Cláudio era um bom companheiro de mato e bastante chegado num "mézinho". Passada a fase das caçadas, passamos às esporádicas pescarias. Sugeriu-me um dia que fôssemos pescar num sítio lá pelas bandas de Agudos, cujo proprietário morava no Exterior e só vinha ao Brasil três meses por ano. Tinha deixado ordem proibindo a pesca em sua propriedade, mas o administrador poderia permiti-la no caso de um amigo muitíssimo especial. Pelo apreço que tinha pelo Zé Cláudio, abriu essa exceção, e lá fomos nós, em meu carro.
A vasta propriedade possuia uma enorme lagoa, incrustada em densa mata, onde foram criados pacus e outros peixes nobres. À noite, sentados no aterro da barragem, distante uns oito metros um do outro, fazíamos os lances de linhadas. O Zé não tinha levado lanterna e pescava no escuro. Tinha na sacola uma garrafa de cachaça, que já estava pela metade, e ele já "cheio". Cada vez que resmungava, a rolha saía do gargalo. E olha que ele resmungava a todo instante.
Com minha lanterna, eu o clareava de vez em quando, ajudando-o com a linha toda embaraçada, colocar iscas e, ao mesmo tempo que o vigiava, despreocupadamente. Com minha atenção num peixe que "beliscava" forte, custou-me um tempo para perceber que ele estava enfezado, xingando baixo e batendo o pé no chão, sapateando...
- O que foi Zé? Perguntei.
- Peguei uma sulapa pirambóia, mas não consigo tirar o anzol. A "desgramada" não para de pular... É já que piso na cabeça dela, fia duma mãe...
- Espera que eu vou te ajudar.
E cerquei-me dele, calmamente, com a lanterna acesa e, quando clareei seus pés quase caí de costas: só de sapatos, sem botas, e no escuro, ele tentava pisar no pescoço de uma jararaca de quase um metro de comprimento. Gritei-lhe repetidamente que era uma cobra, para largá-la e vir para o meu lado e, pelos gritos categóricos que dei, apavorado, ele obedeceu de imediato. A cobra, solta (não sei se soltou-se naquele momento ou se já estava livre), deslizou pelo barranco entre moitas de capins e desapareceu.
Hoje eu fico pensando e ainda não consigo acreditar que o Zé tenha escapado das picadas do ofídio, que estava bravo e dando botes a esmo. É inexplicável e difícil de se crer: ou foi muita sorte ou um milagre! E o "porre" do meu amigo foi tão grande que na volta eu, motorista, tive que vir abrindo porteiras enquanto ele gemia e resmungava coisas sem nexo com o queixo caído no peito. Pode?
Adalto Dias Giafferi Prado - Pescador e contador de histórias