Washington - Momentos após ouvir proposta do colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, defendendo a continuidade da negociação com o Irã, o presidente dos EUA, Barack Obama, insistiu ontem na defesa de sanções duras e imediatas da ONU contra o país persa devido a seu programa nuclear. A conversa ocorreu às margens da Cúpula de Segurança Nuclear, que reuniu 47 líderes mundiais em Washington.
Obama teve uma reunião trilateral não programada com Lula e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a pedido dos dois governantes. Lula e Erdogan haviam discutido uma proposta alternativa a sanções ontem, e decidiram conversar com Obama para defendê-la. O encontro, de cerca de 15 minutos, ocorreu logo após uma reunião bilateral oficial entre EUA e Turquia na tarde de ontem.
“Brasil e Turquia acreditam que sanções tendem a endurecer posições”, disse ontem o chanceler Celso Amorim. “Todos compartilham do desejo de evitar usos militares da energia nuclear. Mas acreditamos que ainda é possível uma solução negociada e pedimos que se dê uma chance a esse esforço.”
Segundo Amorim, Obama “não foi categórico”. “Creio que a visão dos EUA é a de que muita coisa já foi tentada (em vão), mas Obama não disse ser contra mais negociações.”
Devido à reunião entre os presidentes, um encontro separado que estava marcado entre Amorim e a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, acabou cancelado.
Amorim já havia discutido a ideia com o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, ontem à noite. Ele também se reuniu com o colega britânico, David Miliband. O Reino Unido é forte aliado dos EUA na pressão por sanções.
O chanceler brasileiro disse que Lula não falou sobre pontos técnicos de uma proposta alternativa com Obama. O Brasil vem defendendo, porém, o uso da Turquia como intermediária para a troca de urânio pouco enriquecido do Irã por urânio altamente enriquecido de outros países, de forma a evitar que Teerã possua estoque suficiente do material para produzir a bomba.
Lula falou à cúpula defendendo a observância brasileira de tratados internacionais - o Brasil não assinou o Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação, que facilita inspeções de instalações nucleares dos signatários pela AIEA (agência atômica da ONU), e sofre pressões a respeito. Em documento que o Brasil distribuiu na cúpula, o país defende a prioridade ao desarmamento das potências nucleares.
Além de Obama, o brasileiro ainda se reuniu ontem com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que apoia sanções, e com o premiê canadense, Stephen Harper.
Apesar dos apelos do Brasil por mais diálogo, os EUA afirmam que alcançar uma resolução sobre uma quarta rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã é questão de semanas.
Obama reiterou ontem que “os chineses já enviaram um representante para negociar a elaboração de uma resolução (contra o Irã)”. Pequim, com poder de veto no conselho, vinha sendo o maior entrave para a aprovação das sanções.
“Sabemos que muitos países têm relações comerciais com o Irã. Mas o que disse ao presidente Hu (Jintao, presidente chinês) e outros líderes é que palavras têm que significar algo. (A intenção) é isolar países que rompam seus compromissos internacionais”, afirmou. O Departamento de Estado disse que se pode até discutir o teor das sanções, mas “é hora de agir”.
A posição contra as sanções pode acabar isolando Brasil e Turquia, que atualmente ocupam assentos rotativos no conselho. Ontem, segundo a imprensa argentina, a presidente Cristina Kirchner usou como argumento para insistir em ter um encontro bilateral com Obama o fato de “não compartilhar da posição do Brasil quanto às sanções”.
Segundo Amorim, o Brasil terá oportunidades para continuar a discutir a solução negociada com outros líderes ainda nesta semana: os presidentes de China e Rússia virão ao Brasil para participar de cúpula do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), a partir do dia 16, e o chanceler turco será recebido em Brasília no sábado. “Não precisamos pedir licença a Obama para fazer o que estamos fazendo.”