Se uma imagem vale mais do que mil palavras, com certeza vale mais do que esta crônica. E se o ofício de cronista já é ingrato em tempos multimidiáticos, mais ingrato é opinar sobre meio ambiente, considerando-se a insensibilidade e a falta de interesse geral em relação ao tema. É possível que haja exagero nessas afirmações, mas vejamos o caso das últimas enchentes em São Paulo – que, antes de remeter à política ou à economia, é puro meio ambiente (bem, talvez não tão puro em se tratando de rios como o Tietê).
Tão certo como o fato de que os rios foram fundamentais no desenho de São Paulo é prever enchentes na metrópole no período chuvoso. No entanto, elaboramos um modo tão esquisito de nos relacionarmos com a natureza que anulamos qualquer possibilidade de compreensão lógica da questão. Convivemos com as enchentes, mas ignoramos as suas causas (exceto no que se refere ao óbvio excesso de chuvas ou à genérica culpa do governo). Se toda sociedade tem sua localização no tempo e no espaço, nós parecemos viver em conflito com o nosso espaço – e, em particular, com nossos rios. Para a cidade, os rios constituem, literalmente, acidentes de percurso. É verdade que a falta de experiência e de condições não nos permite tomar os cursos d’água como fonte de água, canal de transporte, espaço para recreação e, de um modo geral, como meio de vida, funções normalmente atribuídas aos rios. Mas nosso nível de inércia é tão acentuado que não os concebemos nem mesmo como parte integrante do espaço local; os rios são o “patinho feio” da cidade, e sua agonia não parece ser problema nosso. Ficamos até tocados se avistamos alguns dos seres animados que insistem em sobreviver nas suas águas ou margens. Entretanto, na maior parte do tempo, tem-se a impressão de que, definitivamente, os rios de São Paulo nunca abrigaram vida (se abrigaram, é certo que estão mortas as pessoas que comeram assados de peixes paulistanos). Desprovidos de uma “alma” que os torne vivos aos nossos olhos, os rios acabam sendo para nós qualquer coisa que não rios. E é aí que eles extrapolam seus limites.
O Tietê, conhecido como um verdadeiro “esgoto a ceu aberto”, é o exemplo mais célebre disso. Em suas águas, existem muitas pistas que nos ajudam a entender o problema como um todo. Como ocorre com praticamente todos os outros cursos d’água, descarregamos no Tietê todo tipo de lixo e detritos sem qualquer cuidado. Não bastasse o volume da poluição, que aumenta o volume das enchentes, há uma questão ainda mais diretamente relacionada com os alagamentos, à qual damos pouca atenção: a impermeabilização do solo. Antes de São Paulo ter se tornado São Paulo, boa parte da água das chuvas infiltrava-se pela terra, processo que hoje é interrompido pelas infinitas construções e pelo asfalto. Na própria área de várzea do Tietê, naturalmente inundada na época das cheias, construímos avenidas marginais (e agora abrimos mais delas, a custo das últimas áreas permeáveis na beira do rio). Soma-se a isso a enorme quantidade de rios que são canalizados sem que haja uma rede de drenagem suficiente para assumir o papel de transportar a água e, enfim, para evitar o alagamento das áreas mais baixas, convertidas na versão menos eleitoreira dos caríssimos – e inúteis – piscinões. Não há obra de aprofundamento da calha do rio que resolva o problema.
Com tantas ações e omissões, nossa mensagem aos rios tem sido clara: “é vocês aí e nós aqui”. Aliás, “de preferência, livres do mau cheiro”. Numa metrópole em que as relações humanas tendem a ser demasiado impessoais, nossa relação com a vida e com os recursos hídricos é similar: desconhecemos sua dinâmica e natureza. Ainda que haja exceções, somos predominantemente indiferentes aos rios, pelo menos até a hora em que ocorrem as catástrofes. Por trás da histórica má gestão pública que permitiu o crescimento desordenado da metrópole e nos trouxe à beira do naufrágio, há uma concepção equivocada sobre a vida por parte de toda a sociedade. Com um breve exercício de reflexão, não é absurdo concluir que a poluição e o mau cheiro dos rios são reflexos simbólicos da cidade que cresce ao seu redor. Parte dessa sujeira é apenas devolvida às ruas pelas enchentes.
A nossa falta de cuidado e a incidência de casos recentes fizeram das enchentes um lugar-comum em São Paulo. Se a imagem dos alagamentos nos toca cada vez menos, não será uma crônica que vai comunicar melhor. Ainda assim, não posso me furtar a lembrar que as enchentes que têm afogado a metrópole desde o fim do ano passado trouxeram consigo uma peculiaridade: mais de um mês depois da chuva mais forte, a água teima em manter alagados alguns pontos da já castigada periferia. Talvez um rio tenha resolvido marcar nas paredes daquelas casas uma imagem mais nítida do que as que normalmente faz para nos transmitir a sempre clara mensagem da natureza.
O autor, Mateus do Amaral, é colaborador de Opinião