Bairros

Para ‘limpar’ bairro, grupo julga e mata um usuário de crack

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Com a alegação de “limpar” o bairro dos constantes furtos, um grupo de pessoas do Jardim Tangarás, em Bauru, submeteu a um “julgamento” um usuário de drogas, que foi morto por eles no final do ano passado numa rua sem habitações do Jardim Manchester. O caso, esclarecido pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), lembra ações praticadas por membros de facções criminosas, que estabelecem seu código de conduta e fazem “justiça” com as próprias mãos.

Dos oito acusados de envolvimento no homicídio de Luís Eduardo de Jesus, 20 anos, seis estão presos. Todos negam qualquer envolvimento com facções criminosas. Dois continuam foragidos, explica o titular da DIG, Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva. De acordo com ele, a decisão de acabar com a vida da vítima não foi unânime. Três teriam sido contrários, mas nada fizeram para impedir o assassinato. Poucos dias antes do final trágico, Luís Eduardo de Jesus havia furtado crack de um coordenador do tráfico do Jardim Tangarás.

O responsável pela comercialização da droga, então, deu prazo para que o rapaz quitasse seu débito. A vítima foi inclusive ameaçada de morte durante o período estabelecido. Na tentativa de resolver a questão, Luís Eduardo de Jesus furtou a casa de uma vizinha, que reclamou com o padrasto dele. Para contornar a situação provocada pelo enteado, ele procurou o coordenador do tráfico num bar na tentativa de reaver os objetos levados. Segundo a Polícia Civil, o padrasto não sabia da furto da droga e não poderia imaginar o que viria a seguir.

‘Sindicato’

Ainda no bar, outros moradores do Jardim Tangarás tomaram conhecimento do caso e decidiram seguir para um local denominado como “sindicato”, onde a vítima estaria. De fato, foi encontrada. Por lá, usuários consomem álcool e drogas. Trata-se de um imóvel parcialmente abandonado. No local, o grupo decidiu dar um corretivo em Luís Eduardo. Depois, o colocaram num Chevette e seguiram para o Jardim Manchester. Quem não coube no veículo, pegou carona ou foi a pé, conta o titular da DIG.

O “julgamento” começou só depois de todos chegarem no ponto previamente estabelecido. Luís Eduardo foi agredido com socos, pontapés e com pedaços de pau. Tentou fugir, correu cerca de 50 metros, mas foi alcançado e agredido novamente. Na manhã do dia seguinte, foi encontrado já sem vida, com o crânio esmagado, no final da rua Osvaldo Iackstef, entre o Jardim Tangarás e o Jardim Manchester. Do lado dele, um tijolo foi encontrado com vestígios de sangue. Também havia marcas de pneus.

Mas antes do rapaz ser oficialmente identificado pelo padrasto, o coordenador do tráfico - apontado como André Luiz de Jesus Silva, conhecido por Del - passou em frente à residência da vítima e gritou que a havia matado. Disse, inclusive, que faria de novo, conforme relatos da mãe de Luís Eduardo, registrados no inquérito. Por meio de investigações, a DIG chegou ao tal Del, que inicialmente teve prisão temporária decretada e depois a preventiva.

Da mesma forma aconteceu com André Luiz da Silva, Michel Augusto Costa, Rubens Benigno Cecílio, Geraldo Ferreira Brandão, Mário Gustavo Pereira dos Santos, Edelvan José Miguel, Ronaldo Paulino dos Santos e Diego Damião Coelho (sendo que os dois últimos estão foragidos), que estão nas fotos ao lado divulgadas a pedido da polícia.

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‘Justiça existe’

Se não existisse justiça por meio da interferência do Estado, estaríamos vivendo um período de barbárie, analisa o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva.

“Há Justiça sim. Eu represento o Estado, fiz inquérito policial, apurei, a PM fez a parte dela, o médico legista fez o laudo, as pessoas foram presas, o inquérito foi mandado para a Justiça e estamos aguardando a designação de datas”, afirma.

Ele pondera, no entanto, que as pessoas querem que as coisas procedam do jeito delas. Porém, em todas as oportunidades em que a paixão é colocada na frente da razão, a possibilidade de uma injustiça ser cometida é muito grande, acrescenta Caio Augusto Silva dos Santos, presidente da Subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

“Tudo que está à margem da lei causa preocupação a quem quer que seja. A OAB jamais admitirá qualquer ação que não seja das autoridades no sentido de tentar punir os responsáveis por ações criminosas”, destaca Caio. Para ele, cabe ao Estado garantir segurança por meio das polícias Civil e Militar.

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