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Os negócios do Brasil

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

Os BRICs são uma ideia interessante, mas é claro que eles não constituem um grupo com interesses homogêneos. Brasil, Rússia, Índia e China seguirão seus caminhos de acordo com as possibilidades abertas pelo estágio de organização econômica, social e política alcançado ao longo da história de cada um.

A Rússia, após quase um século de experiência do “socialismo real”, é claramente um caso “à parte” no processo de globalização capitalista. Parece que vai continuar como um elemento estranho ao ninho. A China com seus 5.000 anos de civilização e o pragmatismo filosófico que “não importa a cor do gato desde que ele pegue os ratos”, agarrou-se com coragem e inteligência às possibilidades abertas para a importação pelos EUA de produtos fabricados na China com capital de empresas americanas. Não deixou de aproveitar nenhuma oportunidade: foi integrada “estrategicamente” como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Construiu sua bomba atômica sem olhar seu custo humano. Só entrou para a OMC em 2002 (prestando-lhe um favor) depois de ter feito tudo o que era possível em matéria de “artes” exportadoras. Em 30 anos, para inveja de todos nós, transformou-se na segunda economia mundial e no seu maior exportador.

Para a China, os BRICs são apenas convenientes supridores de suas crescentes necessidades de matérias primas e alimentos, que ela pretende pagar com a exportação de manufaturas. Sua política de comércio exterior esconde mal o “moderno imperialismo” na busca de suprimento seguro de matérias primas, como vemos na África e agora no Brasil. Na crise de 2008 ela mostrou sua verdadeira face: fixou sua taxa de câmbio ao dólar. Cuidou dos seus interesses e o fez muito bem!

O Brasil precisa pensar em si e não pendurar-se em ilusões. A situação de cada um dos BRICs é muito diferente. A paciência do Mundo com a China está se esgotando como testemunham nossos próprios problemas com ela. Precisamos tomar cuidado em não assumir compromissos como BRICs que no futuro possam bloquear nossa ação independente.

De todos os BRICs o Brasil é o país que tem maior probabilidade de ver realizadas as “projeções”. Tem: 1) um estoque genético riquíssimo que estimula a adaptação e a tolerância; 2) um importante mercado interno; 3) matriz energética adequada; 4) uma promissora disponibilidade futura de petróleo; 5) terra, água e tecnologia para expandir sua agricultura; 6) uma única língua e, não tem: 7) problemas de fronteira e 8) problemas étnicos e religiosos sensíveis. Mais do que tudo isso, somos uma democracia constitucional consolidada com um supremo Tribunal Federal independente que “garante” nossas liberdades individuais.

Nossa ambição de crescimento é modesta (5% ao ano), o que nos acomodará bem na economia mundial.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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