Mesmo entre os jovens, há quem acredita que a transição para o livro digital não será tão fácil. Principalmente entre aqueles que têm uma convivência diária, ou quase, com os livros impressos.
É o caso das alunas do curso de letras da Universidade do Sagrado Coração (USC) Luane Thomazini de Almeida, 19 anos, e Tharita Gonçales Lima, 20 anos. Embora façam parte da geração Internet, ambas acreditam que não vão se adaptar com muita facilidade ao novo estilo de leitura proposto por equipamentos como o iPad, Kindle e outros.
“Acho que a leitura na tela é muito cansativa. Já baixei livros para ler na tela do computador e não gostei da experiência. Prefiro o livro na minha mão”, comenta Luane. Ela conta que algumas amigas já leram livros digitais, mas quando souberam que ela tinha a mesma história impressa, pediram emprestado para ler novamente.
Tharita também avalia que ler um livro no formato digital é mais cansativo, mas aponta uma vantagem dos e-readers. “O fato de poder carregar uma coleção de livros é um diferencial a favor desses aparelhos”, cita. Um Kindle, por exemplo, tem capacidade para armazenar cerca de 1.500 livros. É uma biblioteca móvel.
Apesar dessa facilidade, Tharita prefere tocar em um livro, folhear, sentir o cheiro das páginas novas. “Me acostumei com o aspecto físico do livro. Acho que não vou me adaptar ao digital”, prevê.
‘Experiência interessante’
No Brasil, poucas pessoas já viveram a experiência de ler um livro digital em um e-reader. Primeiro porque trata-se de um equipamento ainda muito caro para os padrões brasileiros e, segundo, pela dificuldade em encontrar um. A maioria é importada e quem mora em Bauru só consegue comprar um pela Internet ou se viajar para o Exterior.
Foi assim que o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Marco Antonio Caldeira conseguiu um leitor eletrônico da Sony. Ele comprou durante uma viagem para a Inglaterra, no fim do ano. Apesar do pouco tempo de uso, aprovou a inovação.
Ele é um daqueles que cresceram lendo livros de papel e faz isso até hoje. Tinha tudo para resistir a essa mudança na forma de obter informação, mas não o fez. Caldeira já tinha vivido a experiência de ler textos digitais na tela do computador e não gostou. “No leitor eletrônico é diferente. Ele se aproxima bastante do que é um livro”, diz.
Embora o modelo que ele tem seja um dos mais simples que existem no mercado, o professor conta que é possível destacar trechos do livro, tem zoom e permite fazer anotações.
A novidade despertou a curiosidade dos colegas acadêmicos. O professor de sistemas de informação da Unesp, João Pedro Albino, ficou com o aparelho durante uma semana. Foi tempo suficiente para deixá-lo com água na boca. Ao relatar sua experiência, o professor não conseguiu esconder seu encantamento. “No começo eu estava meio desconfiado, porque gosto de folhear, rascunhar, anotar, sentir o peso do livro. O que eu posso dizer é que depois de ter experimentado o e-reader já estou pensando em comprar um.”
“O processo de leitura é fantástico. Dá para ler debaixo de sol, baixar livros, revistas, artigos e ainda carregar dentro do bolso”, comenta. Segundo João Pedro, quase todo avanço tecnológico enfrenta certa resistência por parte dos consumidores, mas depois acaba incorporado ao cotidiano. Foi o que aconteceu com ele: a desconfiança inicial deu lugar ao entusiasmo.