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Lula, Serra, Dilma e a cegueira das eleições

Ciro Monteiro
| Tempo de leitura: 3 min

Alcântara Machado escreveu um conto extraordinário, que se tornou clássico, chamado "Apólogo Brasileiro sem véu de alegoria". Nesse texto o escritor conta a história de um cego que se revoltou com a ausência de luz em um trenzinho. A história é mais ou menos assim: o trenzinho seguia todos os dias para Belém e carregava principalmente os trabalhadores de um matadouro para suas respectivas casas. Em um ambiente cômodo, todos viajavam na escuridão todos os dias e jamais estranhavam a ausência de luz. Até que um dia, 6 de maio, o cego baiano, flautista de profissão, que viajava no mesmo veículo, perguntou a um rapaz sobre uma notícia de jornal e o mesmo lhe informou que não era possível ler devido à ausência de luz no vagão. O cego questionou a falta de luz e, a partir daí, inicia-se toda história do conto. Os trabalhadores, a partir das declarações do cego, se revoltaram com a situação e passaram a quebrar tudo no trem, exigindo o direito a luz, o que passou a preocupar o Estado e a polícia, obrigando estes a tomarem medidas e solucionar o problema dos trabalhadores. A figura do cego é essencial em todo o conto, pois além de ser um flautista de profissão, diferente do rebanho (trabalhadoras do matadouro, ou seja, o autor deixa explicita a idéia de rebanho, como homens que são levados pela boiada e se acomodam com a situação), foi o único que, mesmo sendo cego (aliás, isso foi uma violenta crítica alegórica feita por Alcântara Machado), se sensibilizou com a ausência de direitos dos usuários do trenzinho e disse com plena eloqüência: “Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem esta incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignora fará valer seus direitos sem ele. Contra eles se necessário”. Este conto serve de alegoria a situação que vivemos atualmente no Brasil, principalmente minha geração, pós-ditadura militar que não se preocupa, ou não conhecem história e blinda um governo corrupto como o atual. Aclamado com 80% de aprovação popular, o presidente Lula se utiliza de sua influência para fazer campanha aberta para a eleição de Dilma. A todo momento nos deparamos com inúmeras pesquisas que mostram a dança da corrida eleitoral, como se fossemos uma população democrática. Nunca questionamos a validade dessas pesquisas. Não questionamos também a falsa idéia de que exercemos a democracia com o voto, será? O voto é apenas a falsa idéia de democracia que tende a jorrar passividade em nossos corações, pois votamos em candidatos que já foram escolhidos por um determinado grupo de pessoas que geralmente detestam o cheiro de povo, a não ser em plena campanha eleitoral, quando são capazes de lamber o suor do trabalhador. Lula, Dilma, Serra, são um pouquinho deferentes, mas a tônica é sempre a mesma: “favorecer os banqueiros e os grandes empresários desse país”, e se sobrar um pouquinho, darão para as bolsas fome, geladeira, família, etc, principalmente porque precisarão se reeleger nos anos seguintes. Lula fez aliança com antigos membros da ditadura, favorece banqueiros e defendeu com unhas e dentes o corrupto José Sarney. Serra privatiza, cria pedágios e promove o maior descaso com a educação no estado de São Paulo com a manutenção da ridícula aprovação continuada e utilizou-se de um bônus assistencialista para por fim a necessária greve dos professores. Será que escolhemos alguém por meio do voto? Não seria necessário escolher antes e repensarmos essas muitas pesquisas divulgadas com antecedência? Falta luz para nossa geração, pois blindamos um governo de trabalhadores que não favorece os trabalhadores e legitima a corrupção e somos dependentes de uma máquina eleitoral que irá eleger um presidente (Dilma, Serra, etc.) que não representará o povo. Por isso, peço que por favor chamem o cego do conto de Alcântara Machado.

O autor, Ciro Monteiro, é professor de História, estudante de biblioteconomia e mestrando em Ciência da Informação da Unesp-Marília

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