De tempos em tempos, a Fórmula 1 lança novidades tecnológicas surpreendentes que, com o passar dos tempos, acabam sendo incorporadas aos nossos carros. Já falamos sobre várias delas, como a ignição eletrônica, a injeção direta de combustível, os pneus radiais sem câmara, os pneus slick, o motor turbo, os controles de tração e do diferencial, os freios ABS, toda a eletrônica embarcada... Enfim, a lista vai longe.
Outros desenvolvimentos são específicos da categoria por serem diretamente ligados à função competitiva do carro, como a aerodinâmica, por exemplo. O uso de asas dianteiras e traseiras permitiu um aumento drástico de força vertical, que faz com que o carro “grude” no chão com a velocidade. É como as asas dos aviões, só que aplicadas invertidas, gerando o chamado “downforce” ou, literalmente, força descendente. Outro exemplo é o sistema de reabastecimento, hoje suprimido, mas que perdurou por muitos anos, quando gerou uma tecnologia que permite colocar de 12 a 15 litros de gasolina por segundo no tanque. E como se parássemos no posto da esquina e tivéssemos o tanque de nosso carro cheio novamente em 3 a 4 segundos.
Um carro de Fórmula 1 pode e deve ser monitorado constantemente e ter suas regulagens otimizadas para um desempenho ótimo. Estas regulagens podem ser feitas fora do carro pela equipe técnica ou de dentro do carro, pelo piloto. A equipe pode ajustar os aerofólios ou asas, o alinhamento das rodas, a pressão e o tipo dos pneus. Pode influir também no motor e no câmbio, definindo o comprimento das cornetas do coletor de admissão em função do circuito (mais travado ou mais veloz), da relação de marchas mais adequada do câmbio ou do tipo de travamento parcial do diferencial, por exemplo. Já de dentro do carro o piloto pode acessar os botões de controle do volante e alterar a distribuição de carga de frenagem entre os eixos, o controle de tração, o auxílio de direção, sensibilidade do acelerador, a relação de mistura ar-combustível, dentre outras coisas. O piloto pode decidir por si mesmo baseado em sua sensibilidade e experiência, mas geralmente segue as instruções via rádio da equipe. Ao invés de ter um painel de instrumentos, existe apenas um visor de cristal líquido no próprio volante, que é a interface de um sistema muito sofisticado de gerenciamento eletrônico do veículo.
Agora, a área onde a tecnologia é mais aplicada é mesmo a aerodinâmica. É um estudo caríssimo eu envolve pesquisas em túnel de vento e muito cálculo, avaliando cada forma da carenagem e sua influência na penetração do ar em alta velocidade. Aletas e superfícies são dispostas em locais estratégicos para corrigir ou reorientar o fluxo do ar em escoamento, de forma a diminuir o arrasto e melhorar a aerodinâmica.
A última invenção nesta área é, a meu ver, revolucionária, pois mesmo sendo tão simples, nunca havia sido tentada antes. A equipe McLaren desenvolveu um duto que pega ar e o canaliza direto sobre a asa traseira, aumentando a carga sobre o eixo traseiro, dando mais aderência nas curvas. Só que este aumento de carga aerodinâmica gera um maior arrasto e faz com que o carro perca velocidade nas retas devido ao relativo excesso de asa. Como esta não pode ter sua regulagem alterada de dentro do carro pelo piloto, foi criada uma solução genial. Foi feita um bocal de passagem do ar para dentro do cockpit que pode ser tampado pelas costas da mão esquerda do piloto. Funciona assim: em reta, o piloto encosta a luva no bocal e o tampa, e o sistema faz com que o ar não atinja a asa, não produzindo o arrasto. Em curva, o piloto tira a mão do bocal e se concentra na direção, deixando o ar passar direto para a asa, aumentando o efeito aerodinâmico. Desta forma, se pode ter as duas situações otimizadas, em retas e em curvas. Apesar de achar brilhante, eu ainda tenho algumas restrições técnicas. Não vejo como correto o fato do piloto ter que tirar a mão do volante (na verdade ele não chega a tirar, mas fica com ela mais afastada do volante, tocando-o apenas com os dedos e não com a palma esquerda), o que pode interferir na segurança. Uma solução seria a colocação de um pequeno solenóide para abrir e fechar o bocal acionado por um botão no volante, mas precisaria de aprovação da FIA para ver se não está infringindo nenhuma regra, já que a asa não é alterada e sim, o fluxo do ar. Pode ser uma solução, mas acho que eles acabarão banindo o equipamento em breve...