Manaus - Ele nasceu nos ares, virou piloto profissional, escapou de cinco acidentes de avião e morreu ontem no bimotor Seneca que caiu em Manaus.
Para a filha, a habilidade do pai também deve ter evitado uma tragédia maior, pois a aeronave caiu ao lado de um colégio e a poucos metros de um conjunto de casas. O homem em questão chamava-se Miguel Vaspeano Lepeco - nome dado justamente porque nasceu a bordo de um avião da Vasp, em 1957. “(No acidente de ontem) Ele não caiu sobre as casas, sabia que a tragédia seria maior”, diz a filha, Andréa Lepeco, 32.
Apesar do esforço do piloto, outras cinco pessoas morreram na queda do Seneca - incluindo a secretária estadual da Educação do Amazonas, Cínthia Régia Gomes do Livramento.
Segundo Andréa, em 34 anos de profissão, o paranaense de Maringá sofreu cinco acidentes no ar, sem registro de mortes, graças à destreza adquirida em voar para garimpos na serra Pelada.
Num dos casos, o comandante Vaspeano, como era conhecido nos hangares, salvou sete pessoas: a mulher, grávida, dois filhos e mais quatro parentes. Era o ano de 1987. A filha do piloto diz que o voo seguia de Goiânia para Itaituba (PA), onde a família morava nos anos 80. O avião sofreu uma pane na região de Maués (AM) - a mesma cidade que seria o destino da viagem de ontem - e perdeu contato com a torre. “Ele avisou pra nós que só tinha oito minutos de combustível”, disse a mulher. Ele não podia pousar sobre as árvores. “Mas parece que Deus olhou e apareceu um beira de praia. Aí ele conseguiu pousar.’’
Segundo a filha, ele tinha orgulho porque foi a primeira criança a nascer dentro de um avião em pleno ar, no mundo. O fato ocorreu porque, orientada pelos médicos, em 10 de junho de 1957, a mãe do piloto, Maria Alícia Ribeiro Lepeco, voou de Maringá para Curitiba para fazer o parto em um hospital com mais recursos. Segundo Andréa, o parto era de risco, mas, antes de pousar, a criança acabou nascendo durante o voo da Vasp. “O nome Vaspeano foi sugerido pelo comandante do avião, Eleude Ziokovisk, que virou padrinho dele”, disse.
Com o nascimento no avião da Vasp, Vaspeano ganhou passagens aéreas até o fim da empresa, que faliu em 2008.