Moscou - Embora tentando exibir um discurso afinado sobre o Irã, Brasil e Rússia mostraram ontem clara dissonância em relação às chances de que seja obtido um acordo sobre o impasse nuclear durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país persa.
Em Moscou, penúltima escala antes de Teerã, Lula recebeu o aval do presidente russo, Dmitri Medvedev, para os esforços do Brasil de costurar um entendimento que dê garantias sobre o caráter civil do programa nuclear iraniano.
Em entrevista concedida após reunião com Medvedev no Kremlin, o brasileiro disse que está “cada dia mais otimista” quanto a um acordo com o Irã. Afirmou ainda que confia nos “30 anos de experiência como negociador político” para convencer o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.
Medvedev, que acompanhava sorridente as palavras de Lula, foi bem mais moderado em sua opinião sobre as chances de sucesso do Brasil. “Se o presidente Lula é otimista, eu também vou ser. Eu diria que as chances (de acordo) são de 30%” disse o líder russo.
Chance de 9,9
Ao ouvir a avaliação do colega russo, Lula abriu os braços e disse, fora do microfone: “Então você não está otimista”. Em seguida, o presidente brasileiro disse que, de 1 a 10, acredita que as chances de um acordo nuclear com o Irã sejam de 9,9.
Gafe
Uma falha na tradução diluiu o que poderia ter sido uma gafe cometida pelo presidente Lula ontem em Moscou. Durante a entrevista coletiva concedida ao lado do presidente russo, Dmitri Medvedev, Lula desviou o discurso em defesa da paz no Oriente Médio para lembrar a invasão soviética do Afeganistão (1979-1989).
O comentário foi feito quase no fim da entrevista, dominada pela questão nuclear iraniana. Lula disse que o Irã é “apenas parte”’ do que precisa ser feito no Oriente Médio, a começar pelo conflito entre Israel e os palestinos. Em seguida fez uma relação com a história recente do país anfitrião.
“Eu passei parte da minha juventude sendo contra a invasão do Afeganistão pela Rússia. Agora, quero paz no Afeganistão também”, disse o presidente, puxando o braço de Medvedev, que pareceu surpreso.
Jornalistas russos que presenciaram a entrevista, porém, disseram que mal entenderam a declaração, devido à má qualidade da tradução simultânea.
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Hillary reforça ceticismo quanto a acordo com Irã
São Paulo - Em Washington, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, reafirmou seu ceticismo em relação à iniciativa do presidente Lula de convencer Teerã a fechar acordo nuclear durante a visita oficial que fará neste fim de semana.
Para Hillary, “o intercâmbio que houve entre o presidente Lula e o presidente (Dmitri) Medvedev em Moscou ilustrou a montanha que os brasileiros estão tentando escalar”.
“Eu disse para meus colegas nas muitas capitais do mundo que acredito que ele (Lula) não receberá dos iranianos nenhuma reação séria antes da ação do Conselho de Segurança (da ONU)”, afirmou.
Hillary informou que as negociações entre os cinco membros permanentes do conselho e a Alemanha sobre a formulação das novas sanções ao controverso programa nuclear iraniano “avança todos os dias”.
Ontem, ela revelou avaliar, a partir de uma conversa que teve com Dai Bingguo, conselheiro de Estado chinês, que o país cederá às demais potências na aprovação de nova resolução.
“Essa é a maior prioridade não apenas para os EUA mas também para muitos dos nossos parceiros e aliados.’’
De acordo com a secretária americana, a intransigência demonstrada pelo Irã na questão nuclear é o principal argumento em favor das represálias.