O crack virou uma epidemia urbana . Assim como outras doenças difíceis de controlar, a dependência por esse tipo de droga, feita a partir da mistura de cocaína com bicarbonato de sódio, está causando pânico a uma parcela da sociedade e destruindo emocional e financeiramente muitas famílias. Cada pedra queimada serve de combustível para alimentar a engrenagem que movimenta a criminalidade. Especialmente por causa dele, os furtos, roubos, assalto às residências e até mesmo os homicídios tornaram-se mais comuns no cotidiano dos bauruenses, em particular, e dos brasileiros, em geral.
Os trocados que cada usuário consegue, seja por meio do crime ou vendendo o que tem dentro de casa, são usados para saciar o vício e inchar os cofres do crime organizado. Como consequência, estimula o tráfico e a violência urbana.
O crack virou uma fábrica não apenas de desespero, mas também de ilusões. A começar pelo preço da pedra. Vendida a R$ 5,00, aproximadamente, ela parece ser de baixo custo. Mas se o efeito da droga é quase instantâneo e avassalador também o é fugaz.
Por ter curta duração (cerca de 30 minutos), quando o efeito passa, o usuário procura por uma nova pedra. E uma é consumida atrás da outra. No fim das contas e do consumo, o saldo é elevado. E quase nunca se tem dinheiro o suficiente para saciar o desejo. O dependente se vê impelido ao crime como saída para suas crises de abstinência.
“Eles começam praticando pequenos delitos, mas depois se envolvem em crimes mais graves”, conta o delegado seccional de Bauru, Benedito Antônio Valencise. Segundo ele, quando a dependência chega a um estágio mais avançado, os usuários não se preocupam com os meios que utilizam para obter a droga.
De acordo com Valencise, o dependente perde totalmente o controle sobre seu comportamento. “Por isso, o problema das drogas é também caso de polícia”, afirma.
Segundo o delegado seccional, o crack contribuiu bastante para o aumento da criminalidade em Bauru. Sem o controle sobre suas ações, os usuários ficam mais propensos ao crime.
Por conta disso, a Polícia Militar iniciou um trabalho de mapeamento dos principais pontos de consumo e venda de crack na cidade. A intenção, segundo o capitão Flávio Kitazume, é usar as informações para municiar uma grande operação envolvendo vários setores da sociedade. Segundo ele, as ações seriam repressivas e preventivas. “Se não resolver totalmente o problema, pelo menos vai servir para mudar o cenário”, acredita.
Na esfera da saúde, o assunto também preocupa. O número reduzido de vagas para internação dos dependentes é lamentado pelo delegado seccional. Na opinião dele, a cidade precisa de mais casas de recuperação.
Valencise conta que muitas pessoas procuram a polícia solicitando a internação de parentes dependentes. Embora não caiba à polícia fazer encaminhamentos para internação, o delegado sabe que as duas casas de recuperação de drogados em Bauru estão lotadas e existe fila de espera.
O Esquadrão da Vida, por exemplo, atende atualmente cerca de 30 dependentes químicos e tem uma lista de espera em torno de 15 pessoas. Já a Comunidade Bom Pastor tem 25 internados e uma fila de espera de seis pessoas. A internação varia de seis a sete meses e precisa ser requisitada pelo Centro de Referência Especializado à Assistência Social (Creas), órgão municipal que tem convênio com essas duas instituições para o tratamento dos dependentes de forma gratuita.
Há 10 anos trabalhando na Comunidade Bom Pastor, a psicóloga Elizabete Kurozawa revela que antigamente a maior parte dos internos era dependente de álcool. Hoje, os dependentes de crack predominam. É um retrato inequívoco do efeito negativo dessa droga na sociedade. Segundo a secretária Darlene Tendolo, da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), somente no primeiro trimestre deste ano, 155 pessoas procuraram espontaneamente por tratamento contra o vício. De acordo com ela, o número aumenta a cada ano.