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Guardador de carro amplia ‘atuação’

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Basta encostar o carro, antes mesmo de tirar a chave do contato, seja na porta de um banco ou nas proximidades de um restaurante ou casa noturna para surgir a pergunta: “Tranquilidade aí, patrão? Posso olhar o carro?”. Diante disso, o motorista, na maioria das vezes, por “livre e espontânea pressão”, aceita a oferta do serviço e, na volta, desembolsa algumas moedas.

Enquanto alguns se sentem acuados e intimidados com a sensação de insegurança natural de médias e grandes cidades brasileiras, outros aderem ao serviço por saber da história de vida de muitos guardadores que estão nessa função unicamente pela falta de melhores oportunidades de trabalho . “Às vezes me bate uma insegurança. É algo de momento”, comenta a professora aposentada Ebe Benitez, abordada diversas vezes por guardadores de carros.

Ebe conta que, sempre que para o carro nas ruas centrais da cidade, pensa duas vezes antes de colaborar com os trocados pedidos pelos “flanelinhas”. “Colaboro quando percebo que a pessoa é honesta”, diz a aposentada.

Histórias como a de Ebe se espalham pelas ruas de Bauru por conta do aumento da quantidade de guardadores. Não há dados oficiais, mas policiais, motoristas e comerciantes dizem que, antes restrito às áreas centrais, o “serviço” agora é encontrado em diferentes pontos da cidade. Escorada no contexto socioeconômico, a atividade ampliou-se seguindo a descentralização do comércio e da prestação de serviços, como os realizados por agências bancárias.

Por isso, se em outras épocas os guardadores eram presença mais constante na porta de restaurantes e casas noturnas, as adjacências das agências bancárias tornaram-se pontos disputados pelos informais. “Certamente, a descentralização das agências bancárias contribuiu para o aumento de guardadores pelas ruas da cidade”, observa o tenente Roberto Trujillo Júnior, comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar em Bauru.

Apesar de não generalizar, pois considera que boa parte do contingente de guardadores é composta de pessoas honestas e que fazem da atividade esteio para o sustento da família, o oficial enfatiza que a informalidade resulta, inevitavelmente, na ação de marginais que se aproveitam da situação para cometer delitos.

“É preciso analisar caso a caso”, pondera. “Contudo, certamente existe uma parcela responsável por furtos, roubos e outros crimes, entre eles o tráfico”, atesta o oficial da PM. “Uma coisa puxa a outra”, acentua, garantindo que a corporação realiza patrulhamento rotineiro a fim de coibir abusos, contudo, sem realizar rondas específicas contra a ação de “maus guardadores”.

“Cumprimos o que está previsto tanto na legislação estadual quanto municipal”, explica Trujillo Júnior, que entretanto, não descarta futuros trabalhos específicos, desde que sejam estabelecidas parcerias entre a corporação e municipalidade. “Nada impede que um trabalho seja feito, desde que com parceria”, ressalva.

Entre bons e maus guardadores, sem que haja uma lei específica que regulamente a prática, os principais prejudicados continuam sendo os motoristas. Caso não conheçam o vigia informal de longa data, são obrigados a pagar para contar com a sorte.

“Hoje faltam alternativas de emprego, principalmente entre os jovens, totalmente perdidos. Queira ou não, vigiar os carros é um serviço, não deixa de ser um ganha-pão”, reconhece a professora aposentada Ebe. “Mas infelizmente, tem alguns que são malandros e marcam o lugar, acho isso errado”, reprova.

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Sem ‘noia’

Aos 29 anos, Rodrigo Fernando Benedito não vê outra alternativa de trabalho a não ser vigiar os carros estacionados numa rua em zona bancária e de restaurantes próxima à avenida Duque de Caxias, região do bairro Higienópolis. Nesse ponto há seis meses, ele garante ter o respaldo tanto de motoristas quanto de funcionários de banco próximo.

“Sou conhecido por todos”, assegura o guardador, favorável à criação de uma lei específica para tornar sua função uma atividade formalizada. “Estou desempregado e essa é a única maneira que tenho para me manter”, justifica. “Com uma lei, ganharíamos mais a confianças das pessoas, seria mais correto”, considera Benedito, morador da Vila Cardia e pai de uma menina de 4 anos.

Outro guardador, que trabalha nas redondezas de um bar tradicional da cidade, também aprova a ideia de uma lei. “Seria bom, tiraria os ‘noias’ (drogados) da rua”, acredita o trabalhador informal, que pediu para ter sua identidade preservada.

“Estou há três anos na área e todos me conhecem. Só vigio os carros que posso ver”, assegura o guardador, que já teve o ponto ameaçado por um “noia”.

“Um dia chegou um rapaz aqui que estava de saidinha (como é chamada a saída temporária de presos do regime semiaberto)”, recorda. “Chegou querendo me intimidar, mostrando a ficha policial, dizendo que eu estava no ponto dele. Ele não conseguiu me assustar, conheço esses malandros, sou ex-policial”, assegura.

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‘(In) Tolerância’

Desde o ano passado, a Polícia Militar de Assis (a 180 quilômetros de Bauru) colocou em prática uma lei em vigor desde a ditadura Vargas (entre 1930 e 1945) que pune com prisão todas as pessoas consideradas em estado de “vadiagem”. Indivíduos sem documento ou que não comprovem ter emprego e, eventualmente, forem abordados pela PM, podem ser enquadrados nessa lei, que também não tolera som alto noturno e guardadores de carro.

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