Quão difícil nos é, neste período de extrema consternação por sua passagem tão precoce e repentina para o outro plano, externar nosso imenso pesar, pois diante de tamanha comoção, nosso pensamento se turva, confundem-se nossas idéias para expressarmos e lamentarmos tão sentida perda. Mas, com a serenidade d’alma que só Deus pode nos conceder em momentos como esse, conseguimos nos lembrar e avaliar a importância de sua vida sacerdotal.
Vem-me à mente aquela missa num domingo à noite, lá pela metade do ano de 1993, em que padre Carlos foi apresentado como o novo padre da Comunidade de São Benedito. Pronunciou ele, então, algumas palavras, que, na ocasião, pareceram-me tão tímidas (cheguei mesmo a pensar que ele seria mais um padre a passar rapidamente por aqui, como vinha ocorrendo desde que padre Ivo Martinelli - outro padre-servo-de-Deus maravilhoso que, com afinco, conseguiu terminar e inaugurar a tão sonhada Igreja Matriz local, obra paralisada por muitos anos - tinha sido transferido para o Seminário), mas que, agora, depois de toda sua trajetória e de tê-lo conhecido um pouco melhor, me soam como de “humildade e grandeza interior” já naquela época.
Iniciou a sua jornada na São Benedito de forma recatada, mas já, no ano seguinte, começou a dar indícios de sua intensa e esplêndida dedicação e inserção nesta comunidade. Como me lembro bem daquela missa do Dia das Mães de 1994, em que ele, prestando homenagem às Mães, cantou uma canção inédita de autoria de um rapaz, seu amigo, de sua cidade-natal, e conquistou a admiração dos presentes, dentre os quais eu me incluo. Foi demonstrando, cada vez mais, a sua dedicação ao sacerdócio, através de uma atuação dinâmica: - iniciou atendimento, duas vezes por semana, à pessoas angustiadas, oprimidas, desiludidas, necessitadas de um apoio psicológico: ouvir um conselho, uma palavra amiga; - agraciou-nos com a visita da Imagem de Nossa Senhora Rainha da Paz, com o padre Inácio, lotando a Igreja e iniciando as missas carismáticas, realizando muitas curas através da “oração em línguas”, dom do Espírito Santo.
As missas atraíam caravanas de vários lugares, sendo também convidado para celebrar em outras localidades, vizinhas e até mais distantes; - deu atenção à obras sociais para 3 faixas etárias: Creche Antônio Pereira (assistência a um número cada vez maior de crianças em idade pré-escolar), Casa de Nazaré (amparo à meninas adolescentes de famílias desestruturadas) e Casa Padre Pio (abrigo e cuidados a idosos desamparados); - iniciou a Hora Santa, num dos domingos do mês, louvor e agradecimento ao Santíssimo Sacramento; - resgatando uma tradição, implantou a formação de grupos de coroinhas (meninos de 8 a 12/13 anos) para auxiliar nas liturgias e ritos sagrados, dando-lhes oportunidade de vivenciarem melhor a fé cristã, podendo gerar até vocações sacerdotais; - com sua mente aberta e procurando sempre estar presente, deu grande incentivo à constituição de Pastorais (dentre elas, a da Comunicação, com a criação do jornalzinho “O Evangelizador”), atraindo e acolhendo muitos fiéis para as mesmas, manifestando também sua aversão à “panelinhas”, orientando e valorizando a união de todos para trabalharem juntos e possuírem humildade no ato de servir, o que convergia para o lema adotado por ele em sua vida sacerdotal: “AMAR E SERVIR”; - expressou, através de 3 obras escritas, muitos de seus pensamentos e momentos de reflexão, bálsamo e alento para a vida de seus leitores e, através da gravação de um CD, o seu louvor ao Senhor.
Por tudo isso e muito mais, sua dedicação, simpatia, expressão de bondade e acolhida, carisma e alegria (esta bem demonstrada no final de cada missa carismática, em que cantava e dançava, junto com os presentes, louvando ao Senhor), atraiu muitos e muitos jovens, aproximou e converteu muitas pessoas para a Igreja, despertando também vocações sacerdotais; uma alma inquieta, dinâmica, incumbida de uma missão peculiar e abençoada: promover Cristo no mundo e a Ele trazer muitas e muitas outras almas para poderem dar um testemunho de vida alicerçado na fé do Senhor.
Padre Carlos, embora tenhas partido tão cedo e de forma tão abrupta, foste fiel e viveste intensamente o teu lema sacerdotal, deixando bem marcada tua passagem por este mundo e podes usufruir, agora, com certeza, das benesses da Glória do Senhor.
Resta-nos, embora nossa comoção e tristeza sejam enormes por sua partida prematura e inesperada para a Casa do Pai, agradecer a Deus por ter-nos abençoado com tua importante vocação, perseverança e atuação na mesma, pedir ao Senhor que conforte e console nossos corações, em especial os de sua família e sua mãezinha, cuja dor sequer podemos imaginar, deixando em nossa lembrança a alma iluminada que foste, tudo o que plantaste pelo Senhor. Que Ele também nos conceda a graça de não esquecer o que nos transmitiste e de sempre nos esforçarmos para viver nossas vidas de acordo com os Seus preceitos, tornando-nos merecedores de estarmos, um dia, também em Sua Santa Glória.
Que Deus continue nos agraciando com outros sacerdotes dedicados e empenhados em aumentar a nossa fé e nos fazer crescer como cristãos, e que, felizmente, já podemos contar com alguns (de nosso mais estreito conhecimento), padre Giulliano (vocação despertada por Pe. Carlos), padres Fábio e Beto, servindo a esta comunidade no presente.
M. Leonor F. Polido - carta enviada no dia 26/4