Após enfrentar a maior tragédia de sua história - uma enchente sem precedentes ocorrida em janeiro deste ano, que varreu seu “Centro Velho” -, São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, está finalmente conseguindo superar o trauma. Uma força-tarefa, que conta com a participação de docentes e alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), inclusive do câmpus de Bauru, tem ajudado a reerguer a cidade fundada em 1769, conhecida pela beleza de seus edifícios tombados e por sediar uma das folias mais disputadas do Carnaval paulista.
O arquiteto e professor José Xaides de Assunção Alves, um dos coordenadores do projeto, afirma que além de sair do trauma, São Luiz do Paraitinga caminha para atingir um patamar superior ao de antes da tragédia. “Além de recuperar o que foi perdido na cidade, valorizando seus aspectos antigos mais marcantes, tentaremos dotá-la de estruturas urbanas que certamente servirão para melhorar a vida da população”, explica.
Ao todo, a Unesp atua em 11 frentes de recuperação de São Luiz, entre elas direito, psicologia, turismo, hidrologia e desenvolvimento social. Os estudantes bauruenses (dos cursos de graduação e pós) têm trabalhado nas áreas de arquitetura e desenho industrial, no sentido de tentarem propor intervenções urbanas que sirvam não só para restaurar aquilo que foi destruído pelas águas, mas também evitar que a população volte a ser pega de surpresa pelas intempéries da natureza.
Uma das grandes preocupações dos alunos foi dotar a cidade de um mecanismo que sirva para barrar as enchentes de menor potencial destrutivo. Eles propuseram a construção de um muro de contenção às margens do rio São Luiz.
“Essa obra não seria destinada a conter uma grande cheia - para isso, seriam necessárias obras mais complexas no leito do rio -, porém, serviria para evitar que a cidade volte a ser invadida pelas águas”, afirma Xaides, lembrando que enchentes volumosas são fenômenos comuns na cidade (costumam ocorrer há pelo menos 300 anos).
Trabalhos semelhantes estão sendo desenvolvidos nas encostas dos morros que rodeiam São Luiz. Em ambos os casos, os alunos tomaram o cuidado de evitar que os muros de contenção se convertessem em “feridas” na paisagem.
A construção das barreiras é apenas um dos itens de um complexo projeto de revitalização da paisagem de São Luiz. No caso dos morros, os estudantes propuseram a recuperação da vegetação nativa nas encostas. Já as margens dos rios estão sendo dotadas de equipamentos urbanos e jardins, que servirão para embelezar o antigo Centro da cidade.
Uma das ideias mais ousadas, que deverá começar a se concretizar nos próximos meses, é a construção de uma escola de música às margens do rio São Luiz. Por si só, o projeto representaria um marco, uma vez que funcionaria como um pólo irradiador de uma das maiores expressões culturais da cidade.
Xaides explica, porém, que a obra também terá seu lado funcional. “Nossa intenção é construir um anfiteatro (com capacidade para cerca de 200 pessoas) ao lado da escola, voltado para o lado do rio. Além de servir como um espaço para apresentações musicais, essa estrutura também funcionará como um dique, evitando, numa eventual cheia, que as águas do São Luiz invadam o Centro”, diz.
Outra proposta que chama a atenção é a instalação de um Centro de Educação Socioambiental em uma das regiões mais assoladas de São Luiz do Paraitinga. “Essa estrutura seria emblemática, uma vez que ajudaria a preparar a cidade para as novas cheias que estão por vir”, afirma Xaides. O projeto paisagístico prevê a instalação de uma passarela pênsil ao lado do novo espaço.
Os alunos também têm se dedicado com especial ímpeto na reconstrução do asilo de São Luiz. Com o antigo prédio destruído, os 18 idosos que viviam no local tiveram de ser provisoriamente transferidos para uma instituição em Taubaté. Se tudo correr como o esperado, eles deverão retornar ao abrigo em dois meses, no máximo.
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Praça do Carnaval
O grupo da Unesp de Bauru também propôs a construção de uma praça destinada a receber os grandes eventos de São Luiz do Paraitinga. O local, batizado provisoriamente de praça do Carnaval, ficaria ao lado da atual rodoviária da cidade. O ginásio de esportes passaria por uma profunda reformulação, convertendo-se em um verdadeiro centro de eventos.
Xaides frisa que as intervenções propostas procuram respeitar ao máximo as características arquitetônicas de São Luiz (marcada pelo estilo colonial do século 19). De acordo com ele, o trabalho dos alunos dará especial ênfase à questão da habitação.
“Atualmente, há muitas famílias em São Luiz vivendo em áreas de risco”, lembra o professor. Além da construção de moradias pelos meios tradicionais, os responsáveis pelo projeto de recuperação da cidade histórica apostam em um modelo inovador de habitação social, em que, em vez comprar o imóvel, a família de baixa renda pagaria uma quantia simbólica para viver na casa (o valor ainda não foi definido).
“A pessoa viverá no imóvel o tempo que for necessário, mas não será proprietária. A casa pertencerá ao poder público”, frisa Xaides. Segundo ele, na medida em que conseguissem ampliar sua renda, as famílias atendidas pelo “aluguel social” seriam encaminhadas a outros programas habitacionais dos governos federal ou estadual.