Tribuna do Leitor

Carolinas


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Carolina Maria de Jesus nasceu no interior de Minas Gerais, em Sacramento, em 1914. Vinda de uma família extremamente pobre, teve que trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa, por isso estudou apenas até o segundo ano primário. Na década de 30, mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé. Ganhava seu sustento e de seus três filhos como catadora de papel. No meio do lixo, Carolina encontrou uma caderneta, onde passou a registrar seu cotidiano de favelada, em forma de diário.

Mesmo diante de todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu por ser negra e pobre, Carolina revela, através de sua escrita, a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade.

Descoberta por um jornalista, Carolina teve suas anotações publicadas em 1960 no livro Quarto de Despejo, que vendeu mais de cem mil exemplares. Ao representar a imagem da pobreza e da exclusão, Carolina ilustra o oitavo princípio do Código de Ética do Assistente Social, que conclama pela opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação - exploração de classe, etnia e gênero. Excluída, negra e mulher, ela serviu perfeitamente para alimentar as estatísticas dessa triste realidade.

Façamos a transposição de sua história e as de outras milhares de Carolinas para o âmbito do Serviço Social, que forma profissionais capazes de atuar na realidade brasileira tão duramente marcada pela desigualdade, pobreza e exclusão social. Para tal, os profissionais são preparados para obter conhecimentos necessários à produção de análises que fundamentem suas intervenções em diversas situações sociais, principalmente no âmbito do trabalho. A formação profissional possibilita apreender as questões sociais e psicossociais a partir de uma base teórico-metodológica que busca compreender os processos relacionados à realidade social, elaborando políticas sociais que se direcionam ao atendimento das mazelas da sociedade.

Carolina nasceu antes do Serviço Social no Brasil e faleceu em 1977, quando o mesmo passava pelo Movimento de Reconceituação. Provavelmente não foi beneficiada por ele, até mesmo pela própria concepção predominante à época. Carolina escreveu sua literatura-denúncia e conseguiu ser porta-voz de sua classe. Mas o quadro de pobreza, preconceito e discriminação que a vitimaram, apesar de tantos avanços, ainda persistem nos barracos e nas favelas das Carolinas de hoje.

A profissão do Serviço Social, evidentemente, tem procurado em todo seu processo evolutivo das últimas décadas, garantir acesso aos serviços e benefícios conquistados socialmente, como ações de enfrentamento à pobreza, de atendimento sócio-educativo à criança e ao adolescente, à família, aos idosos e portadores de deficiência, movimentos sociais, alternativas de geração de renda etc. No entanto, ainda são insuficientes tanto esforços quanto recursos e, paradoxalmente, a miséria ganha tentáculos difíceis de serem extirpados. O assistente social é preparado para inovar, criar alternativas de ação com base crítica, usando de criatividade para elaborar, propor, executar e avaliar serviços, programas e políticas sociais, sempre afinado com as novas demandas.

Ao adentrar o universo dessas Carolinas, que os profissionais do Serviço Social saibam vislumbrar, muito além das doutrinas e dogmas religiosos que confluem na obstinada verdade, aquela por quem viveram (e morreram) líderes como Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela: A paz é fruto da justiça. No caso em questão, justiça social, pura e simples, para todos.

Marta Helena Meireles de Resende - 1o. ano de Serviço Social

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