‘A leitura transformou a minha vida’
Ana Paula Pessoto
Não é de se admirar que, aos 79 anos, a memória e agilidade mental sejam de um menino, pois o hobby e a grande paixão de Pedro Grava Zanotelli, desde a juventude, a leitura e o vasto universo de conhecimento proporcionada por ela. “Apaixonei-me pelos livros aos 16 anos e não vivo mais sem eles”, confessa.
Menino simples e de família batalhadora, Pedro cresceu na cidade de São Manuel, onde ajudava na lavoura e vendia bananas para complementar a renda familiar. Com vontade de crescer profissionalmente e apaixonado pelo mundo da informação, passou a escrever o “jornalzinho” do grêmio da escola e, mais tarde, recebeu um convite para ser redator do Correio de Botucatu, na sucursal de São Manuel. “Cheguei a pensar que era um jornalista”, lembra. Mas como se já estivesse determinado em algum lugar, a profissão de professor falou mais alto e ele mudou-se para Bauru para dar aulas no Senai e, mais tarde, também no Senac.
Com o enorme desejo de evolução e saber, 19 anos depois de concluir os estudos, Pedro ingressou na primeira turma do curso de administração da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Com diploma em mãos, de aluno ele se tornou professor e, quatro anos mais tarde, foi elevado a diretor, cargo que ocupou por 26 anos.
Entre uma aula e outra, sempre sobrou um tempinho para a dedicação ao jornalismo. Em Bauru, escreveu para o Correio da Noroeste, Diário de Bauru e Jornal da Cidade, além de ter sido sócio da Associação Paulista de Imprensa e presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru (OVJ). “Estou na casa dos 600 artigos publicados”, ressalta.
Sempre atuante no desenvolvimento bauruense, Pedro Grava Zanotelli foi secretário municipal de Administração, ajudou a implantar o primeiro distrito industrial de Bauru, foi um dos fundadores da Fundação Educacional de Bauru, hoje Unesp, é sócio do Rotary Club, secretário da Legião Mirim e membro da Academia Bauruense de Letras. Esses e outros assuntos fazem parte da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Onde o menino Pedro cresceu?
Pedro Grava Zanotelli - Nasci em Cerqueira César porque minha família comprou um sítio por lá, mas depois voltamos a São Manuel, terra de praticamente toda minha gente. Trabalhávamos e morávamos em sítio. Quando criança, eu ajudei a fazer melado, rapadura, farinha de milho...Era um menino que trabalhava e estudava. Fui criado em sítio até os 14 anos. Eu andava três quilômetros toda manhã até chegar na escola. E a escola era bonitinha, viu! Tinha quatro salas, uma professora para cada uma, diretor...Tudo era organizado. Estudava até o meio-dia e depois ia para a roça. Anos depois, minha família vendeu o sítio e comprou uma chácara encostada na cidade.
JC - Imagino que as lembranças dessa época sejam boas...
Pedro - São, sim. Inclusive está saindo agora a 5ª Antologia da Acadêmia de Letras na qual escrevi uma espécie de autobiografia literária falando sobre meus amores de infância e de juventude. Foi muito bacana. Mas nem tudo foram flores. Para ajudar a família, eu precisava trabalhar vendendo bananas. Então, colocava um cesto nas costas e saía vendendo as frutas pelas ruas. Só que, naquela época, os jovens que estudavam tinham posição social melhor que a minha. Eu passava perto dos clubes vendendo bananas e eles estavam lá, jogando. Fiquei meio revoltado, achando que era desprezado por eles, que Deus privilegiava poucos...Coisas da idade. Porém, no terceiro ano, tudo mudou quando descobri a leitura.
JC - A leitura mudou sua vida?
Pedro - E como! O primeiro livro que li foi uma antologia poética, linda. Ainda a tenho em algum lugar. Depois disso comecei a frequentar a biblioteca da escola e, de repente, estava mais familiarizado com os livros do que a própria bibliotecária. Eu tinha dois colegas que eram irmãos e eles sempre eram os primeiros da sala. Depois que tomei gosto pela leitura, empatei com os dois. Depois do ginásio, fui fazer a escola normal. Quando você passa a ler, vai adquirindo cada vez mais conhecimento. Então, por estar sempre na biblioteca, fui convidado a ser o diretor do jornalzinho do grêmio. No início, ele circulava apenas entre os alunos, depois, consegui que ele se tornasse uma espécie de encarte do impresso que circulava em São Manuel e região. Eu recebia cartas das pessoas elogiando e aquilo me estimulava.
JC - Chegou a ser redator?
Pedro - O chefe político da região comprou um jornal chamado Correio de Botucatu e abriu uma sucursal em São Manuel. Passei a ser redator desse jornal até me formar na escola normal.
JC - Pensou em ser jornalista?
Pedro - Cheguei até a pensar que era! Toda vez que assumi um compromisso, eu estudei sobre o assunto, e comecei a partir daí! Fiz um curso de jornalismo, ou melhor, ganhei um livro que é um curso completo de jornalismo escrito por Vitorino Castelo Branco. Aprendi desde a parte física e administrativa de um jornal, até os diversos tipos de textos. Conheci os principais jornais da região e de São Paulo. Mas, quando terminei o curso, ocorreu um fato sem explicação: dois amigos meus, sem combinar nada um com o outro, deram-me recortes sobre um concurso para professor do Senai, aqui em Bauru. Estudei para ser alfabetizador e me vi dando aulas de matemática para eletricistas, torneiros mecânicos e marceneiros.
JC - Mas continuou com o jornalismo em Bauru?
Pedro -Então... Eu hoje estou na casa dos 600 artigos publicados. Nunca deixei de escrever. Já escrevi para jornais e revistas da Capital, além de Bauru e região. Para mim, escrever passou a ser uma extensão da carreira como professor. Não virei jornalista porque acabei sendo professor. Hoje sempre escrevo com a intenção de ensinar e transmitir conhecimento. Vim a Bauru para trabalhar no Senai, mas como a carga horária era de apenas quatro horas, tinha tempo de sobra. Para preencher parte desse tempo, trabalhei como redator do Correio da Noroeste.
JC - Também foi professor do Senac?
Pedro - Por 20 anos. Fui contratado como professor de história.
JC - E por que a faculdade de administração?
Pedro - Fiquei 19 anos apenas trabalhando. Nessa altura, eu já tinha muito interesse por administração. Sem me gabar, posso dizer que sou o cara que estuda administração há mais tempo em Bauru. Estudo com regularidade desde 1955. Gostei tanto que não deixei e, em 1969, quando foi criado o curso de administração na Instituição Toledo de Ensino (ITE), eu entrei para a primeira turma. Como já tinha experiência, em algumas matérias eu tinha mais conhecimento que o próprio professor. Mas nunca falei nada. Era tido apenas como um aluno dedicado. Assim que me formei, fui contratado como professor da faculdade e, quatro anos depois, fui nomeado como diretor e fiquei 26 anos no cargo.
JC - É um apaixonado por Bauru?
Pedro - Sempre tive muito interesse pela cidade. Não era jornalista profissional, mas fui o único a fazer toda a propaganda para a criação da Faculdade de Engenharia de Bauru, que deu origem à Fundação Educacional de Bauru, hoje Unesp. Participei da criação do primeiro distrito industrial de Bauru, trabalhei no Correio da Noroeste... Como disse, depois fui colaborador do Diário de Bauru, voltei ao Correio da Noroeste e, em 1977, passei a colaborar com o Jornal da Cidade, onde tenho mais de 500 artigos publicados. Durante muito tempo escrevi uma coluna chamada “Administração e Gerência” e, hoje, escrevo de acordo com a atualidade e minhas leituras.
JC - Quando entrou para o Rotary Club?
Pedro -