Passatempo
Se para alguns aposentadoria é sinônimo de tranquilidade, para Avelino Santa Maria, 64 anos, o merecido descanso tornou-se motivo para preocupação. Isto porque, após parar de trabalhar, passou a gastar todas suas energias e seu tempo livre com jogos de azar. Aos poucos, o que era diversão se tornou hábito, e depois vício.
“Comecei jogando cartas na praça Rui Barbosa esporadicamente, depois fui para os bingos e, com o tempo, cheguei a perder R$ 450,00 em um dia. Foi aí que percebi que precisava de ajuda”, relata.
Foi quando, por indicação da Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes), Avelino conheceu o projeto Centro-dia, desenvolvido pela Vila Vicentina. Atualmente, passa o dia todo na instituição, onde fez amigos e aprendeu trabalhos manuais. Deixa o local ao cair da tarde e segue para sua casa, que fica no Mary Dota. “Agora sim tenho uma ocupação para minha mente”, comemora.
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Velha infância
Com 75 anos de idade, Rosalina Caetano, vive na Vila Vicentina a infância que não teve. Como uma criança sem preocupações e ávida por diversão, ela supera diariamente os limites impostos pela idade e aproveita intensamente seus dias, sempre com um sorriso nos lábios.
Rosalina chegou na Vila Vicentina há 25 anos, antes morava no Paiva. Com ela, trouxe para a nova residência sua paixão por bonecas. Funcionários do local contam que, quando era lúcida, Rosalina pedia a todos os visitantes que lhe presenteassem com bonecas. Dona de um carisma imenso, chegou a ter uma coleção que quase tomava o quarto onde dormia.
Atualmente, Rosalina usa uma cadeira de rodas para se locomover e precisa da ajuda para circular pelo abrigo. Quando avista amigos, acena calorosamente e, mesmo com dificuldades para falar, vai logo exibindo a boneca e apresentando: ‘Antônia, minha neném’.
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República
Grande parte das pessoas descobre o significado de uma república assim que entra em uma universidade. Mas Cecília Moreno Barbosa, 80 anos, só foi entender bem o que a palavra significava na terceira idade. É que, sem ter para onde ir e com o marido adoecido, há 39 anos ela buscou apoio na Vila Vicentina, onde permanece até hoje, mesmo sem o esposo, que acabou falecendo.
“Éramos sozinhos e não tínhamos como cuidar um do outro, foi quando conheci aqui. Até tenho uma enteada, mas ela trabalha muito e não tinha como olhar a gente”, explica.
Hoje, Cecília fica em um quarto que se parece um pedacinho da casa onde morava. Sobre a cômoda estão seus objetos mais importantes, como a televisão, algumas bonecas, lembrancinhas e imagens de santos.
“Me sinto em casa. É como se eu morasse em uma chácara com todas as minhas amigas junto. Aqui todo mundo gosta de mim”, conta Cecília, exibindo um porta-retratos com sua foto junto de suas amigas.
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Parte da história
Quem vê José Aguinelo dos Santos passeando pelo terreno que abriga a Vila Vicentina não imagina que, em menos de dois meses, ele completará 122 anos. Alto, esguio e sempre usando um elegante traje social (com direito a chapéu e sapatos bem engraxados), seo Aguinelo, como é chamado, esconde bem a idade que tem.
No tempo em que a reportagem permaneceu no local, o homem franzino não poupou esforços e andou o tempo todo, de um canto para o outro, com passos rápidos e sem auxílio.
Ele chegou na Vila Vicentina há 37 anos e foi lá que tirou sua primeira documentação. Com muita história para contar, seo Aguinelo é dono de uma personalidade forte e só fala realmente quando quer, e o que quer. Funcionários do local afirmam que raramente ele precisa de medicamentos.
“Eu preciso é trabalhar, não posso ficar conversando. Olha esta grama como está alta, e este chão como está sujo”, reclama, ao mesmo tempo em que anda ligeiro pelo terreno.
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Paz e música
Quem vê Cerlene Aparecida Miranda, 60 anos, tocando músicas em seu teclado não imagina o que ela passou até chegar na Vila Vicentina.
Pianista e assistente social formada, Cerlene perdeu toda a família quando ainda era jovem. Para agravar a situação, descobriu ser portadora de esquizofrenia e tentou suicídio por três vezes. Há seis anos, antes de ir morar na Vila Vicentina, vivia em uma casa no Parque Vista Alegre, em péssimas condições de moradia. Quando chegou na entidade, por meio de denúncia e solicitação de conhecidos, descobriu uma nova família.
“O que mais gosto de fazer aqui é tocar músicas em meu teclado. Tenho um piano também, mas fica guardado porque não cabe no meu quarto. Adoro quando as pessoas vêm me visitar e posso tocar para elas ouvirem”, explica, animada.
Recentemente, Cerlene intensificou os treinos e aguarda a chegada do namorado, que mora no Rio de Janeiro e virá visitá-la daqui alguns dias, na data de seu aniversário. “Não posso fazer feio para ele”, completa.