Cultura

Música para os cupins

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

Uma das figuras mais originais da música popular brasileira, Tom Zé passou por Bauru no último sábado pela Virada Cultural, deixando aos fãs - além da boa música como sempre o faz - assunto para a semana inteira. Para a indignação de uns e compreensão de outros, o músico abandonou o show no Serviço Social do Comércio (Sesc), revoltado consigo mesmo por ter entregue sua música “aos porcos”.

Polêmicas à parte, hoje à noite, no mesmo palco, o grupo brasiliense Móveis Coloniais de Acaju oferece um prato cheio aos cupins. Assim autodenominados, os fãs terão a oportunidade de curtir o primeiro show da banda na cidade, às 21h. Cheio de expectativa para conhecer a cidade natal do pai, o baterista Gabriel Coaracy animou-se ainda mais quando avisado pela reportagem do JC Cultura que a apresentação - previamente programada para a área de convivência da unidade - havia sido transferida para um local maior, o ginásio de eventos, devido ao “frisson” que a vinda do grupo causou entre o público.

“Que legal isso. Eu, particularmente, estava pensando: ‘poxa, vai ser a minha primeira aparição em Bauru, estou empolgadão para isso, mas me disseram que ia ser em um lugar pequeno, que não ia caber muita gente. Estava com medo de ficar gente de fora”, comenta o músico, 31 anos, que esteve por aqui há tempos, quando ainda era criança. “Meu pai estava até tentando localizar uns primos no Orkut, eu estou tentando contatar o pessoal da família também para chamar para o show. Estou muito feliz com a oportunidade de conhecer as raízes do meu pai”, convida para a apresentação, que terá entrada gratuita.

Além de Gabriel, outros nove integrantes - Bruno (guitarra), André (baixo), Fábio (baixo), Fabrício (produção), Xande (trombone), Beto (flauta), Paulo (sax), Eduardo (gaita e teclados) e Esdras (sax) - contam a história dessa mobília, que começou dar as caras, na Capital Federal, no final dos anos 1990. O funcionamento harmônico do coletivo é, aliás, uma das primeiras coisas que despertam a atenção para o grupo, que tem seu repertório pautado no rock, ska e ritmos latinos e do Leste europeu. “O grupo é maior que os integrantes e o nosso som é muito influência de todo mundo. Cada um tem suas especialidades, um é mais habilidoso com uma coisa, outro com outra, e acho que é isso que dá cara ao nosso trabalho”, avalia o saxofonista Esdras Nogueira.

Pautado nos conceitos de “criação coletiva” e “banda-empresa” - é o grupo que organiza o próprio festival, produz e vende seus produtos e planeja suas turnês -, o trabalho do Móveis deu certo, para o músico, porque há muito respeito e liberdade entre os integrantes. “Claro que batemos muito a cabeça até fazer isso funcionar. Mas optamos por sermos assim, com amor pelo o que fazemos e muito respeito um pelo outro”, afirma. “Qualquer um do grupo tem a liberdade de chegar e mudar uma música. Isso aconteceu muito no ‘Complete’ (último álbum do grupo), de alguém escrever uma letra e o outro chegar e mexer. Claro que não é tão simples como eu estou falando, é um processo desenvolvido com o tempo e com o qual temos que aprender muito ainda, com um se relacionando com o outro, com o público, sempre focado nessa troca”, completa sobre o funcionamento do grupo que se sustenta sozinho desde 2003.

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O show que o Móveis Coloniais de Acaju apresenta hoje à noite é o mesmo trazido pelo DVD ao vivo gravado pelo grupo em São Paulo, com lançamento previsto para agosto. Baseado no último álbum da banda, “Complete” (2009), o repertório resgata ainda faixas do disco de estreia “Idem”. “É um retrato do show da gente”, resume Esdras. Entre as canções, destaque para “Cheia de Manha”, “Sem Palavras”, “O Tempo” e “Descomplica”.

Irreverente e performático, o MCA tem ainda como uma de suas marcas a interação com o público. Em muitas de suas apresentações, os músicos acabam descendo do palco e se misturando com a plateia. “Isso aconteceu pela primeira vez em um show em Goiânia que estava bem vazio e tínhamos acabado de comprar os microfones sem fio. Descemos no meio da galera e deu certo, acabou virando uma prática. Temos muito disso, do inusitado, as coisas acontecerem naturalmente e ficarem”, explica o saxofonista, que já passou dois anos na Europa trabalhando em um circo.

Tendo os festivais como palcos indissociáveis de sua história, o MCA decidiu criar, em 2005, o seu próprio, batizado de Móveis Convida. Em 11 edições, eles já reuniram em Brasília mais de 20 bandas e um público que ultrapassa a marca de 30 mil pessoas. “Quando estávamos mostrando a cara, antes de sermos conhecidos, os festivais eram a nossa porta de entrada. Eles são um empurrão e as bandas devem encarar dessa forma, investindo no trabalho”, aconselha.

“Hoje, apesar de voltarmos aos festivais já em outra condição, ainda existe esse espírito de agregar público porque o Brasil e o mundo são muito grandes. Por conta dessa importância que os festivais têm que resolvemos fazer o nosso, com bandas de Brasília e de fora, e estamos muito felizes com o resultado”. Mais sobre o Móveis pode ser encontrado no site www.moveis coloniaisdeacaju.com.br.

• Serviço

Show com Móveis Coloniais de Acaju hoje, às 21h, no ginásio do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Entrada gratuita. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1750.

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